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Lucy (dez)

Jornal O Estado do Maranhão E para onde vão esses pés, essa fronte, livres do óleo que fervia nas tardes? Eles vão para tudo. Lucy Teixeira Elegia Fundamental Ela possuía a lucidez e a lucidez possui o seu nome: Luci. Lucy Teixeira, a quem conheci em 1998 e com quem, apesar da diferença de idade, fiz uma grande amizade. Lucidez que a acompanhou até o instante de começar a padecer, sem nenhuma necessidade e a despeito dos esforços para protegê-la da amiga que lhe assistia em todos os momentos. Poetisa, romancista, contista, cronista, crítica literária, ensaísta, teatróloga, artista plástica, agitadora cultural, Lucy marcou a cultura maranhense do século XX como uma de suas figuras mais significativas. Se a sua produção não é conhecida como deveria em nosso país, a razão está unicamente em ter ela morado muitos anos na Europa, a serviço do Ministério das Relações Exteriores. Conviveu, em Minas Gerais, com grandes nomes da literatura nacional, companheira de estatura intelectual ig...

Domingo no cinema

Jornal O Estado do Maranhão Leio crônica do professor Alan Kardec, da Universidade Federal do Maranhão, sobre os antigos cinemas de Grajaú, sua terra natal. Ele, ao perceber ali a presença dominante de filmes americanos, propôs uma reflexão acerca da forma de absorção da cultura estrangeira no Brasil, em especial a dos Estados Unidos, país que, devemos observar, respaldado em gigantesco poderio econômico, leva a todo lugar sua cultura, em seus aspectos ruins e nos bons, como nos casos dos avanços científico-tecnológicos e do jazz, seja o tradicional ou de raiz, seja aquele que “representa um som universal de diferentes tribos”, no dizer do paulista-maranhense Augusto Pellegrini, no seu Jazz: da raízes ao pós-bop . Daquela cidade é também um velho e querido amigo, Sálvio Dino, meu companheiro na Secretaria da Fazenda do Estado no governo Pedro Neiva de Santana, entre 1971 e 1975, quando o secretário da pasta era Jayme Santana, antes meu colega na antiga Faculdade de Economia do Maranh...

Coque, coque

Jornal O Estado do Maranhão Reportagem recente da Veja mostra a contaminação das escolas brasileiras de nível médio por lamentável proselitismo esquerdizante. Os danos potenciais à educação são imensos porque se trata de doutrinação ideológica de jovens em período formativo. No entanto, eles não deveriam se submeter a visões primárias, além de unilaterais, acerca de assuntos importantes para a compreensão do mundo em que irão viver e trabalhar. Os tópicos curriculares devem ser debatidos a partir de mais de um ponto de vista, honestamente apresentados, e não servir de desculpa a tentativas de catequese. Eis a história. A mãe de uma aluna do Colégio Pentágono, de São Paulo, ao examinar apostilas usadas pela filha, produzidas pelo grupo COC para 200 escolas particulares e 220.000 estudantes, descobriu o que ela chamou de “panfletagem grosseira” e de “porno-marxismo”. Fiquemos num único exemplo: “A dissolução das comunidades neolíticas, como também da propriedade coletiva, deu lugar à ...

Delírio na Venezuela

Jornal O Estado do Maranhão Só o Partido dos Trabalhadores, em sua paranóia anticapitalista, seria capaz de propor a cassação da licença da Globo, concernente a serviços de transmissão de televisão, concessão do Poder Público. Digo mal, pois não é só o PT; também o MST, uma tal Central de Movimentos Populares e assemelhados. A proposta surgiu após o fechamento da RCTV por Hugo Chávez, da Venezuela, oportunidade em que o PT deu uma nota de apoio ao ato. Alega o caudilho venezuelano que a emissora participou de tentativa de golpe contra ele. Ora, a televisão Venevisión, na época oposicionista, do magnata Cisneros, coordenadora de fato da rebelião – anteriormente, lembremos, Chávez havia tentado seu próprio golpe –, mudou de lado, passou a ser bem tratada e adotou ardor oficialista de recém-convertido. Portanto, o crime da RCTV não foi o de ter apoiado o golpe antes, mas de ser contra o governo agora, quando se ouvem ameaças de fechamento da Globovisión, outra organização divergente. S...

Vôo na manhã

Jornal O Estado do Maranhão Da sacada vêem-se os prédios modernos, onde muitos anos antes pescadores passeavam seus pequenos barcos a vela e suas redes; vêem-se as ruas, as avenidas, o asfalto, o mangue, a lagoa, o mar e a praia com pequenos seres seminus caminhando aparentemente despreocupados, mas em verdade pensando na vida e em suas armadilhas. Será que ele me ama, divaga a garota e olha o próprio corpo descoberto por um biquíni azul. Ali estão os pássaros, os beija-flores, por exemplo, e também os urubus, em seu passeio matinal, lá no alto, despertando inveja nos caminhantes lá embaixo. Um dia desses, dia de sol e muito vento, sem nuvem alguma no céu, presente somente o azul, um deles, cujo nome e espécie nunca se chegou a saber (seria descendente de um daqueles que costumavam pousar na pitombeira no fundo do quintal com cheiro de terra, depois do almoço, nas quentes tardes de antigamente, e que – tiro certeiro de baladeira –, morriam sem ao menos sentir a aproximação do caroço ...

Contar histórias

Jornal O Estado do Maranhão Há poucos dias, em conversa com Carlos Gaspar, confrade da Academia Maranhense de Letras, falamos sobre a falta de convívio freqüente entre netos e avós nos dias correntes, ou da falta, em muitas famílias, da proximidade de outros tempos, quando não poucas vezes três gerações moravam na mesma casa em enriquecedor contato. Eu havia passado os olhos nas crônicas de um livro que ele planeja lançar este ano, tendo Viana como referência, e notara a forte presença do avô dele, o português Delfim, nas lembranças de Carlos de seu tempo de menino naquela histórica cidade de belos lagos e campos, na Baixada Maranhense, região onde tenho um bom pedaço de minhas origens, porque vem de Cajapió a família de minha mãe. A mesma proximidade entre gerações sinto em bate-papos com o erudito diplomata, poeta e historiador Milton Torres, autor de O Maranhão e o Piauí no espaço colonial e do livro de poesia No fim das terras , que se encontra em São Luís finalizando livro so...

Crime privilegiado

Jornal O Estado do Maranhão Sempre me pareceu coisa de país de bacharéis, herdada de nossa formação social vinda da Colônia, essa lei (ela existe mesmo?) que manda colocar em cela especial os encarcerados portadores de diploma de curso superior. Especial aí é sinônimo de cela separada das dos presos ditos comuns, e mais confortável. Poderia alguém supor, então, que bastaria a um ladrão, para ter regalias na cadeia, a suposição de ter ele certa ilustração, suposição incerta na maioria dos casos, a não ser que se considerem ações criminosas como socialmente desejáveis. Delinqüir com um canudo debaixo do sovaco tornaria seu portador menos danoso à coletividade, justificando a obtenção de regalias negadas a outros com pouca instrução? Haveria bandidos de primeira e segunda classe? Ou melhor, bandidos com classe e sem classe? É a luta de classes na prisão? Algum ingênuo do povo talvez afirmasse que seriam precisamente essas pessoas classificadas como especiais as merecedoras dos rigores ...