21 de abril de 2019

Tempo de Manguá

Alfredo Raposo


Meu avô materno não foi tropeiro, mas nasceu e cresceu numa época em que as cargas viajavam em lombo de burro do litoral até o sertão. Pelo menos, era o que via, de sua cidadezinha natal, no interior do Piauí, coisa que parece ter-lhe despertado um especial apreço pelo ofício. E, no convívio com os netos, ele frequentemente assumia de caçoada a postura disciplinar e o vocabulário daquela gente. Não sei por que mecanismo associativo, mas essa lembrança me veio, ao saber da decisão do presidente Jair Bolsonaro de adiar o reajuste do diesel programado para vigorar a partir da sexta-feira, dia 12/04. O fato provocou microssismos na política e nos mercados financeiros, Bolsa, câmbio, risco. E deixou zonza minha bússola pessoal, pondo-me a procurar hipóteses explicativas.

Fala a mídia do alegado temor do presidente, ante o risco de o aumento desencadear uma nova greve que, avalia, repetiria os enormes estragos e desgastes da anterior. No seu governo, não! Ao mesmo tempo, ele reitera sua simpatia pelo trabalho dos caminhoneiros em termos tão fundos, que quase chega a dizer (e não exageraria muito na imagem) que eles carregam o Brasil nas costas. Sim, é amor antigo, não esqueçamos seu polêmico apoio, com vídeo e tudo, à greve anterior. O que levou à decisão presidencial pode, então, ser explicado por uma mistura de dois sentimentos, amor e medo, ou seja, por uma espécie de terror sagrado, mais do religioso do que do político. Algo nada presidencial. Vejo, ainda, outro traço bem bolsonariano, o desejo de manter “coerência” com suas atitudes passadas. O horror de ser acusado de fazer a “velha política”, mudando de postura ao subir ao poder. Os caminhoneiros, por sua vez, classe que lhe teria dado um apoio maciço nas últimas eleições, parece agora animada, como que se achando de costas quentes. Com crédito. Daí que minha foto inicial tenha saído borrada: um conta-corrente sendo atualizado? Ou a volta do cipó de aroeira, a nêmese do oportunismo?...

O que importa é que o setor do transporte rodoviário de cargas vive um malaise, um desequilíbrio surgido nos anos mais recentes e tornado crônico, no sentido de que não logra se resolver pela via clássica do repasse de custos. Como economista, sou tentado a buscar as causas, esmiuçando, peça por peça, o mecanismo de mercado. Pois não há dúvida, algo cresceu demais na oferta ou caiu demais na demanda e teima em não ter volta. Criou-se ou uma subdemanda, ou uma superoferta. Em economês, teriam ocorrido deslocamentos estruturais das curvas de oferta e de demanda. Ora, quedas na demanda podem dever-se à redução global do volume de cargas a transportar, ao crescimento das frotas próprias, substituidoras das comerciais, ou ao aumento da oferta dos modais concorrentes, o ferroviário e o hidroviário (para não falar no marítimo de cabotaLuiz gem). Já os aumentos na oferta decorrem da expansão da frota de caminhões comerciais. São essas as pistas que têm de ser seguidas, antes de se ter um diagnóstico sólido do que está contribuindo para a situação. Sem dispor de muitos dados, faço aqui um raciocínio de sentido inverso, procurando deduzir o que aconteceu do que não pode ter acontecido.

A redução do volume de cargas, medido em toneladas/km/ano, se houve, deve ter sido pouco expressiva. No triênio 2014-2016 o PIB caiu algo como 8%, mas na produção física a queda foi certamente menor, se é que houve. A produção industrial encolheu, mas, em compensação, aumentou a tonelagem produzida pelo setor primário (produtor de bens de baixa densidade econômica: muita quantidade por unidade de valor). Refiro-me, mais especificamente, ao agronegócio, cliente, como a indústria, do setor de transporte rodoviário (a mineração, que igualmente escapou à crise, usa a ferrovia). E se o aumento da tonelagem produzida veio, como parece, mais do Centro-Oeste, distante do litoral, a demanda de fretes dessa região deve ter crescido mais que proporcionalmente, com resultante positiva.

Quanto aos modais concorrentes, particularmente o ferroviário e o hidroviário, desconheço investimento pesado de operação recente, que tenha sido capaz de reduzir a demanda pelo transporte rodoviário. Os projetos ferroviários importantes ainda são uma perspectiva no horizonte. O mais próximo, a ferrovia Norte-Sul só opera, precariamente, no trecho entre Açailandia-MA e Porto Nacional-TO. O trecho central (Porto Nacional-Estrela d’Oeste-SP) foi concedido, em março último, à iniciativa privada (empresa Rumo Logística, do grupo Cosan) e deverá levar ainda dois anos, para ser concluído. Não tem como ter deprimido o transporte rodoviário, nos últimos cinco ou seis anos. Resta a expansão das frotas, resultado de duas componentes: o aumento da vida útil média dos veículos e a entrada de veículos novos. O aumento da vida útil faz crescer a frota, às custas da elevação do custo operacional. Mais sadia é a outra componente, pois resulta em crescimento com baixa de custo.

Os dados que obtive sobre idade média são inconclusivos. Parece ter subido algo como 1 ano, ao longo da década (de 9,6 anos, em 2012, para 10,8, em 2017). Mas há unanimidade quanto a um crescimento notável da frota comercial de caminhões. No total, todas as categorias incluídas, ela passou de 1.378 mil unidades, em 2009, para 1.770 mil, em 2013, e daí para 1.888 mil, em 2017 (dados do Sindipeças). Ou seja, enquanto o PIB ficava praticamente estagnado, teria crescido a um ritmo anual médio de 4,0%. Ritmo que foi de 6,5% anuais no subperíodo inicial (2009-2013). Não é de estranhar se, na conjuntura recessiva que se seguiu, isso tenha dado origem a uma baita oferta excedente. Matéria publicada na seção de Economia de O Globo de 3/6/2018 apontou, com base em cálculos de especialistas, um excesso de 300 mil caminhões, correspondente a 16,0% da frota comercial de 2017 (o total é maior, se incluídos os veículos não-comerciais, de uso próprio. Mas sobre este segmento as informações escasseiam). Ou seja, são dois meses de férias anuais forçadas... Na prática, as empresas transportadoras, donas de 60% da frota comercial (1.133 mil unidades) tendem a trabalhar hoje, o tempo todo, com uma margem de capacidade ociosa. E os transportadores autônomos, com um ou dois caminhões, a oscilar entre a ocupação plena e a completa ociosidade. Uns e outros na mais ferrenha e irritante competição pela pouca carga. Se, como é lícito conjecturar, nesta peculiar situação os autônomos têm caminhões mais velhos e menos econômicos, fica posto a nu um fator explicativo da especial combatividade demonstrada pelos pequenos caminhoneiros, quando da greve. São os ofertantes marginais, o elo mais fraco e vulnerável.

Mas voltando ao grau de subutilização, ele é mais sério do que parece. De um lado há a pulverização, 40% da oferta em mãos do pequeno transportador. De outra parte, a demanda pelo serviço em geral tem por natureza um formato acentuadamente inelástico, mais para vertical. No agronegócio, em particular, a capacidade de estocagem está, não na fazenda, mas nos centros de coleta, para onde a safra deve ser encaminhada, tão logo colhida. E nessas condições, não há redução de custo (seja de diesel ou do que for) que resolva, pois ela tende a repercutir muito mais no preço do que na quantidade. Ou seja, produz muito mais uma redução do frete do que um aumento da carga a transportar. Não é à toa que a mesma greve do ano passado, que pedia tetos para o preço do combustível, lutava com igual afinco por pisos para os fretes. E conseguiu! O que complicou de vez, botando o governo no ingrato papel de guardião do setor, encarregado de tutorear sua despesa e sua receita.

Não é surpresa que a Nova Matriz Econômica dos sábios de Dilma esteja implicada na barafunda. O setor de transporte rodoviário chegou a essa situação de hipertrofia, com o respaldo dos bancos oficiais, alimentados pelas burras abertas do Tesouro. Entre 2009 e 2016, segundo a mesma fonte, foram 770 mil unidades financiadas, a juro real fortemente negativo e a prazos de até oito anos. Isso, por sinal, bota uma componente que termina de dramatizar o quadro: ao aperto econômico decorrente da superoferta, acrescenta a pressão das letras a pagar. Se eu estou certo, a inadimplência do setor nesses financiamentos deve andar muito acima do normal, com todas as suas sequelas...

Diante da situação, não digo que o governo deva lavar as mãos e “entregar ao deus-mercado”. Muito ao contrário, digo que é social e moralmente imperioso que ele entre em ação. É dever seu. Só que lhe cumpre agir para desatar o nó e não para apertá-lo mais ainda. Vale dizer, tomar o sentido oposto do que se fez até aqui. Em vez de contribuir para o aumento da oferta, pensar em medidas de desmobilização. Coisas como programas de exportação de caminhões usados (há um ativo mercado internacional de máquinas e equipamentos de segunda mão) e de incentivo ao sucateamento de veículos acima de certa idade. E, paliativos de curto prazo, como refinanciamento de dívidas em atraso, bolsa-caminhoneiro para um certo número de carreteiros autônomos e por um determinado prazo etc. E apenas lanço algumas ideias, dentre muitas outras, para serem estudadas e adotadas, caso viáveis. Há que pensar o impensado. E é bom não esquecer que, a médio prazo, o mercado de fretes no Centro-Oeste vai mudar da água para o vinho, em desfavor do modal rodoviário. A longo prazo, nas duas décadas à frente, o crescimento da malha ferroviária, bem assim do transporte marítimo de cabotagem (estimulado pela privatização e modernização dos portos e terminais) imagino que irão retirar importância ao transporte rodoviário no sentido Norte-Saul. No cômputo geral, ele deverá cair do primeiro para o segundo ou terceiro posto, que é a posição normal, nas maiores economias.

Há um bocado de trabalho a fazer. E o presidente a vocalizar seu temor de uma nova greve. E sua simpatia pelos caminhoneiros... Nada contra as simpatias pessoais. Eu, antes de qualquer consideração econômica, confesso: sinto-me banhado do mesmo puro afeto, mistura de respeito e gratidão, sempre que cruzo com os caminhoneiros nas estradas, e assisto à procissão de sua longa paciência. Aliás, um dos meus hábitos de passageiro é descobrir pelas placas dos caminhões de que remotos rincões procedem eles. Para evocar o poema de Manuel Bandeira, o caminhoneiro é meu “marinheiros triste”, que eu gostaria de cobrir de todas as merecendências.

Mas um governo não pode transformar em premissa de política as simpatias particulares do presidente. Nem um país, ceder àquele tipo de temor. Logo, a primeira tarefa, aqui, seria enfrentar com energia a ameaça de greve. Pagar para ver. Por isso, a piscadela inicial foi péssima, caiu tão mal. Ainda mais que o presidente Bolsonaro tem condições excepcionalmente boas: o apoio de razoável parcela da população (muitas vezes maior do que os 5% do seu antecessor); e a sintonia fina com as polícias e as Forças Armadas, que lhe dão homens, inteligência e Estado Maior. E, ao agir como devia, ele estaria não só afastando a espada que ficou pendente, como contribuindo para levantar o moral da Nação, ferido pela greve do ano passado. No curso dela, o que se viu foram uns agentes da lei (polícia e Forças Armadas) com ar de pouco empenho nas ações de repressão ordenadas. Parecia que faziam cera... E a população, diretamente vitimada pela greve, a dar apoio prático e psicológico aos bloqueadores de rodovias. Espetáculo deprimente, esse, de um governo sem autoridade num país disposto à autoflagelação, a se mutilar para exprimir seu descontentamento...

Hoje, 17/04, vem a notícia de uma meia-volta atrás: a decisão por um aumento imediato, num percentual um pouco menor, e um kit de concessões, particularmente aos pequenos caminhoneiros. Mas, agora, vivemos uma ansiedade nova, a espera da reação do setor a esse e aos próximos capítulos. Deu ruim, virou folhetim. E é assim Bolsonaro: seu método parece ser primeiro errar, para depois acertar. O mesmo com a reforma da Previdência, para cuja aprovação o governo vem insistindo em experimentar todos os erros de condução possíveis. O resultado é que, mal começou, já está um mês atrasada.

Ah, sinto dizer, com tal modo de administrar a república nada se ganha. E se perde o bonde e a alegria. Contra ele lanço, aqui, meu protesto. E esclareço, não é gesto de oposição. Estou, como milhões de brasileiros de boa vontade, condenado a apoiar este governo: ele foi eleito limpa e convincentemente, e creio que propõe, no atacado, um rumo econômico sensato. Sobretudo, é um governo cujo fracasso não interessa a ninguém, seria o naufrágio do país, com todos a bordo. Mas boas intenções não bastam. É preciso boa visão. E tática, habilidade: conhecimento do métier, jeito na hora de fazer. Por enquanto, o governo está dando sua contribuição para o barulho que ensandece o país...

Daí essa forma nova de apoio: o apoio crítico, eu quase diria no ralho. Acho que é por isso que lembrei de antigamente. Da faina dos tropeiros, de botar gente quadrúpede, às vezes teimosa e opiniática, no caminho certo da entrega da carga. Pois, para fim parecido existe governo. Para, dentro da lei e da ordem, conduzir o povo a Sião. Usando das manhas suasórias todas. E da coerção legal contra os recalcitrantes e insubmissos. Mas e quando o próprio governo é recalcitrante e insubmisso ao bom senso? Eu ouço meu avô Petrola responder, arrastado, bem do meio do século passado:

—Aí é no manguá! No manguá..
.

abril/2019

17 de abril de 2019

Preconceito

Jornal O Estado do Maranhão

O Maranhão, governado pelo PCdoB, quer de qualquer maneira implantar, na área conhecida como Península, um projeto de instalações portuárias, sem ouvir, como manda a lei, seus moradores. Ante a reação à ideia, milicianos do partido foram à internet, a fim de insultar, difamar, caluniar e intimidar seus moradores e quem mais se atrever a contestar o autoritarismo vigente, por rejeitarem, os moradores, com enfática maioria, os efeitos deletérios do tal projeto. A tropa, com a baba elástica do ódio, ameaçou invadir a Península, até. E assim, comunidades quilombolas e outras recebem aqui toda a proteção devida aos cidadãos brasileiros. Não a comunidades dos “porcos capitalistas”, como a nossa.

Depois do mandarinato esquerdista no Brasil, de 16 anos, época em que as pessoas de baixa renda eram doutrinadas por esse bando a ver automaticamente quem não é pobre como mau e ladrão, chamar-nos de porcos capitalistas, chavão leninista, é consequência natural da doutrinação, não sendo de surpreender a existência de um clima de insegurança como esse de agora no Estado. Quem não for pobre é ladrão, a mente comunista enferma grita.

Comunistas, sempre que assumiram o poder, usaram da intimidação, da mentira, da meia verdade, do amoralismo para subjugar cidadãos livres. Aqui não ocorrerá tal comportamento deprimente, porque o Maranhão ainda é parte do Brasil, um país democrático. O comunista Stalin tentou fazer com o povo da Ucrânia, a república de terras mais férteis da União Soviética, para a produção de alimentos, a coisa mais doentiamente cruel que se pode fazer com um povo: matá-lo por privação de alimento, em meio a sua abundância. Quase conseguiu. Milhões pagaram pela desobediência ao ditador. Aqui não haverá desobediência, pois nestas terras nunca houve ditadores.

Mas qual a razão do projeto ser deletério?

O número de passageiros que transitam hoje entre Alcântara e São Luís, entrando ou saindo pela Península, é de, aproximadamente, 7.500 militares do CLA. Outros 12.000, civis, o fazem pela Praia Grande. Não falo de mercadorias, só de pessoas. Passariam a transitar por aqui 100.000 passageiros, nenhum pela Praia Grande. Se isso não causar grandes e graves impactos de todo tipo, que exigirão a elaboração de estudos ambientais e de impacto na vizinhança, então não sei o que poderá causar. Imaginem a pressão sobre as vias públicas, ao passar por elas, em milhares de veículos, 100.000 passageiros por mês. Mais, ainda, as ruas não podem ser alargadas, pois a Península está entre o mangue e o mar, numa estreita faixa de terra.

Não obtivemos da agência governamental encarregada da implantação informação alguma sobre estudo nenhum. Eles existem? A realização da licitação e início das obras já foram anunciadas, mas a agência nunca dialogou com os moradores nem forneceu documentos com esclarecimentos. Sinal de que não deseja dar explicações.

Esta comunidade, como qualquer outra de São Luís, de qualquer status social, merece ter seus direitos respeitados. Não é mais; contudo, não é menos do que outras, pobres ou não. Se se levam em consideração, como devem ser levados, os direitos dos pobres, por que não se levariam os de gente de classe média? Os moradores querem ser ouvidos e o serão, acreditamos. Assim a lei determina. Os direitos e as leis são para todos. Para poucos, é curvar-se a tentativas de intimidação. Temos consciência das eventuais represálias.

Resultados negativos


Olha só, caro leitor, o Maranhão é o penúltimo Estado brasileiro no ranking do IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, segundo dados relativos ao início de 2018 e divulgados recentemente. Significa que, em janeiro daquele ano, estávamos com um índice menor do que o índice de 26 de 28 Estados e maior do que apenas um, Alagoas.

Para um governador que prometeu durante sua primeira campanha para chefe do Executivo maranhense levar, na prática, o povo ao paraíso, ser o penúltimo soa como deboche. Tempo houve para melhorar, mas faltou trabalho e competência. Os números foram calculados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, órgão por onde sou aposentado, em trabalho conjunto com o PNUD , órgão da ONU, instituição a quem esquerdistas em geral e comunistas em particular recorrem, quando um deles vai para a cadeia. A Fundação João Pinheiro também participa do trabalho. Dados insuspeitos, portanto. Mas o IPEA vai acabar sendo acusado pelo PCdoB de ser desonesto nas pesquisas econômicas que faz e para ele pedirão pena de, no mínimo, tantos anos quantos forem os da sentença ou das sentenças que Lula terá de cumprir.

O IDGM tem três dimensões, renda, educação e longevidade. A longevidade mostrou tendência de crescimento em todos os Estados, fazendo com que o Maranhão continuasse último lugar, com 70,85 anos de esperança de vida ao nascer. O Distrito Federal, com 78,87 anos, tem o índice mais elevado, 8 anos de diferença, a mais, em favor do DF.

Na renda familiar per capita, o Maranhão tem a desonra de ocupar o último lugar também, com R$ 387,34 por família, enquanto Distrito Federal, a unidade com a renda mais alta, tem R$ 1.681,05, portanto 4,4 vezes a do Maranhão.

Com respeito aos índices de Educação, o Maranhão aparece entre os Estados com tendência elevada de aumento, mas todas as unidades federativas apresentaram significativos avanços no período, de tal forma que a posição relativa delas variou muito pouco.

Esses números mostram um quadro de estagnação. Mas, quando os governantes têm conhecimento zero de economia e de zero da formação econômica do Estado, e não sabem o que fazer para melhorar, pode-se esperar o quê? Mais do mesmo. Para quem ia provocar uma revolução positiva nos números negativos de nossa socioeconomia, é tchutcuca o resultado.

10 de abril de 2019

O Velho PT

Jornal O Estado do Maranhão

Quando eu vejo o PT sendo o PT, nos debates da Comissão de Constituição e Justiça – CCJ, que analisa nestes dias a constitucionalidade da PEC da reforma da Previdência, vejo logo o motivo da rejeição ao partido, crescente desde o impeachment de Dilma e antes. Na fase atual, o projeto, cujo mérito será analisado no passo seguinte, quando superado este primeiro, não deveria, por óbvio, causar polêmica alguma. Trata-se apenas de analisá-lo à luz da Constituição e declarar sua constitucionalidade. É quase unânime a opinião das pessoas capacitadas em assuntos legais de não haver empecilhos a sua aprovação nesse aspecto. Juridicamente está perfeito, o que não significa, é óbvio, a proibição de sua discussão na Câmara dos Deputados, casa do Congresso onde se encontra.

Mas o PT não seria o PT e seus representantes na Câmara dos Deputados não fariam parte da bancada do partido, seriam falsos petistas, petistas de araque, como são falsos defensores dos pobres – lembremos da política econômica adotada pelo PT nos seus quatorze anos ininterruptos de governo, invariavelmente prejudicial a aqueles a quem dizia proteger, exatamente os pobres –, se não se comportassem como se comportaram na última semana e no passado, e se comportarão sempre.

Qual a surpresa então com essa maneira de fazer política? Nenhuma. Foram insultos, gritos, palavrões e ameaças. Como recurso eterno e extremo, quando petistas veem como impossível a derrota dos adversários, tentam paralisar os trabalhos do fórum onde a discussão se dá. Estavam lá, na CCJ, os agentes de sempre. A onipresente e estridente Maria do Rosário e Ivan Valente, que nem da Comissão é membro, para dar somente dois exemplos. Houve uma novidade, no entanto. A presença do filho de José Dirceu, condenado por diversos crimes, Zeca Dirceu, no comando da tropa de assalto. E toca a insultar o ministro Paulo Guedes. Tal reação me deu a oportunidade de aumentar meu vocabulário, pois eu não conhecia o neologismo tchutchuca. Inicialmente pensei ter ouvido mal. Mas não. Era tchutchuca, de verdade. Obrigado, Zeca Dirceu, por me dar essa oportunidade preciosa. Agora sou uma pessoa mais sábia, ou melhor, sabida.

Quem não se lembra da recusa dos parlamentares petistas de assinar a Constituição de 1988, a mesma agora defendida por eles? Ou assim eles dizem E a rejeição à Lei de Responsabilidade Fiscal? De tanto ser sabotada pelos governos petistas, ela perdeu a maior parte da eficácia que poderia ter no controle das contas pública. E o acordo contra notícias falsas? O PT foi o único partido grande a não colocar sua assinatura no documento. Gleisi Hoffmann disse: “Compromisso contra “fake news” não passa de mais uma “fake news”. Outro exemplo foi a CPI do desastre da desintegração da barragem de Brumadinho, levando junto com os detritos centenas de vida. Foi outra iniciativa que, junto com deputados do PSL, o PT rejeitou.

Pode-se esperar alguma coisa de um partido que é contra tudo que não atende seus interesses imediatos, não os interesses de longo prazo do Brasil? Não, não se pode, a não ser mais do mesmo. Entendo fazer parte do jogo político a oposição a iniciativas do governo. Para isso existe oposição. Mas outra coisa é opor-se simplesmente, só por opor-se, sem considerar o mérito das propostas vindas do Executivo, deixando de considerar os benefícios que elas possam trazer para o país e o bem-estar da população.

É o velho PT.

3 de abril de 2019

Moralismo Imoral

Jornal O Estado do Maranhão



As instituições de Estado do Brasil, essenciais para nossa vida como nação, encontram-se em grande parte desacreditadas hoje em dia. Contudo, a democracia brasileira precisa de aperfeiçoamento, não de fechamento. Não faz sentido, portanto, o grito “fechem o Supremo”. O Tribunal foi fechado em 1964, mas as palavras de ordem política eram outras. Ouvia-se “Abram o Supremo”.

Esse grito ditatorial, leva-me a um excelente artigo saído na imprensa local há poucos dias, cujo título é “Lava-Jato e os guardiães: nem a pau, Juvenal”, de autoria de Gabriel Machado, vice-presidente do Instituto Observatório e Cidadania. Pergunta Gabriel, com pertinência, quem vigia os vigias, entre eles Dallagnol, o fanático religioso de romance de Dostoiévski, ao falar da tentativa da força-tarefa da Lava-Jato, de criação de uma fundação de direito privado, a ser gerida por seus próprios membros, com o fim de administrar recursos provenientes de multas impostas à Petrobrás por atividades ilícitas até mesmo nos Estados Unidos.

O Procurador-Sol da Lava Jato, dá a impressão de se considerar um déspota esclarecido. Quase chega a declarar “l´état c´est moi”: 1) ao exigir do Supremo decisões de sua preferência; 2) ao virar procurador contra imperativo da lei; 3) ao receber auxílio moradia, mesmo tendo imóvel em Curitiba; 4) ao desafiar a autoridade do STF e ainda exigir respeito a ele. Quem deu afinal a esse currículo não tão honesto o trono de czar do Brasil? 

Falta a ele e a seus companheiros a consciência da importância dos seus cargos e das consequências de seus atos. Eles deveriam voltar a Max Weber, a fim de ser reapresentados à ética da convicção, aquela da ação moral do indivíduo. Esta não deve ser alcançada a ferro e fogo, sejam quais forem seus custos para a sociedade. Exemplo disso é a pauta única da força-tarefa, mesmo ao preço da insolvência material e financeira do país. Poderiam ser apresentados também à ética da responsabilidade, relativa à ação moral do governante, cuja aplicação visa ao bem-estar de todos. 

É preciso entender que o principal instrumento de governo é a política. Se Bolsonaro vai trombar com o presidente da Câmara, ou, ao contrário, Maia resolver trombar com Bolsonaro, então pode não haver remédio e nossa doença se agravar, caso não haja boa-fé para o diálogo, essência da política; ou alternativamente a Reforma será, com certeza, um rato parido pela montanha, uma não Reforma.

O que é mais importante agora, a Reforma ou a moralização dos costumes? Esta última é um objetivo a ser trabalhado um pouco mais adiante. A Previdência, não, tem de ser feita agora ou não haverá pauta moral nenhuma a ser implantada. A pauta alternativa, será a do todos contra todos – hobbesiana. Aí os mais fortes e em posições privilegiadas aumentarão seu poder.

O moralismo não pode se constituir em agenda única. É preciso ter convicções, sim, mas é preciso, mais ainda, ter responsabilidade com o país. Podemos talvez moralizar o Brasil, mas teremos no fim uma economia despedaçada, com choro e lágrimas dos pobres. (Existe algo mais imoral?). Eles e suas famílias já sofreram do mal do desemprego antes, situação degradante, como resultado de políticas econômicas do PT. Desejamos repetir tal drama?

Ainda fabricaremos uma grande nação de miseráveis honestos?

10 de março de 2019

Um twitter



Jornal O Estado do Maranhão

Alguém chegado recentemente de galáxia infinitamente distante da nossa, dos confins do Universo, se tal lugar existir, certamente ficaria curioso por saber o motivo da repercussão de um simples Twiter do presidente Bolsonaro ter sido tão grande aqui no Brasil, país que por um triz, há poucos anos, quase virou uma Venezuela de hoje, com a diferença de ser bem maior. Indagadas, algumas pessoas indicariam a posição de Bolsonaro como presidente da República como explicação da agitação em torno da postagem. Mas isso é somente parte da história. Concordo com o ponto de vista de que ao presidente da República não são dadas certas liberdades de expressar opiniões, por não ser ele um simples cidadão. Bolsonaro precisa se acostumar a sua função. Ela carrega um simbolismo muito forte, de chefe da Nação. O Congresso e o Judiciário não carregam ideia como essa nem a reivindicam. Dessa forma, é preciso ser ele cauteloso ao falar sobre alguns temas. Na história brasileira, alguns presidentes têm se mostrado adeptos estritos dos ditames dos protocolos presidenciais; outros, rebeldes. Adotar o princípio da precaução é o melhor a ser feito, para o próprio bem da administração pública e dos interesses nacionais, entre eles a reforma da previdência. Não é que o presidente não deva falar; deve. Mas há formas e formas de fazê-lo.

Alerto o leitor do seguinte. O viajante intergaláctico não compreenderia nada, mesmo depois de obter a explicação. Segundo lhe garantiriam fontes insuspeitas, a obscenidade – e houve uma, sim –, estava no ato exposto por Bolsonaro, não na exibição do vídeo obsceno. O presidente não devia se comportar daquela maneira, aquilo era imoral, bla-bla-blá, bla-bla-blá. A esquerda brasileira, porém, não mencionou padrão algum de comportamento de Lula ou de Dilma, quando no cargo de presidente. No entanto, existem, sim, dezenas de exemplos de comportamento inadequado dos dois. Reduzo a dois casos os exemplos; um, de preconceito contra africanos; outro, contra homossexuais: 1) a afirmação de Lula de que Pelotas no Rio Grande do Sul era exportadora de viado (com i mesmo); declaração do mesmo Lula de que Windhoek, capital da Namíbia, nem parecia a África, por ser uma cidade muito limpa.

Janaína Paschoal afirmou, com acerto, que, feita por um esquerdista, a postagem de Bolsonaro se transformaria em peça “cult”. Vou além, seria “cult” e outras coisas socialisticamente bacanas. Seria “questionamento” corajoso, se feito por um “militonto” órfão de boquinhas no governo, por uma Gleisi Hoffman qualquer da vida com suas maluquices ou por algum dirigente malandro, do PT ou do PCdoB. Seria também a exposição das mazelas da sociedade capitalista e das injustiças da sociedade brasileira. Eu sempre me emociono profundamente, quando leio sobre a preocupação de esquerdistas com temas de moral e bons costumes. Como quando eles matam de fome o Velho Homem, aos milhões, se preciso for. Assim Stalin fez com os ucranianos e Maduro e Kim Jong-un fazem atualmente com os venezuelanos e coreanos, com o nobre e misericordioso fim de criar o Novo Homem. As ditaduras destes dois países são defendidas pelo PT e PCdoB, como são igualmente defendidas por esses partidos as matanças, em grande escala, durante o século XX, dos povos da União Soviética, Vietnã, Camboja, Cuba...

Machado de Assis no Amazon