13 de dezembro de 2017

Façam o que eu digo...


Jornal O Estado do Maranhão

          O cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, doutor pela New School University e professor visitante na Universidade Stanford, construiu um Índice de Custos do Governo – ICG, concebido para medir de maneira sintética a eficiência do governo – não deste, mas de qualquer governo – em sua relação com o Congresso. As variáveis utilizadas no cálculo são: a) no lado dos custos, conforme está em artigo por ele publicado na Folha de S. Paulo, de 9/11/2017, não num jornalzinho qualquer do PCdoB: “1) quantidade de ministérios (e secretarias com status de ministério) que um presidente decide ter em seu governo; 2) total de recursos que aloca entre os ministérios (e secretarias com status de ministério) ocupados pelos membros da coalizão; 3) montante em emendas individuais que os parlamentares fazem ao Orçamento anual e que o presidente executa”. Os itens 2 e 3 têm seus valores calculados como percentagem do PIB); b) do outro lado, dos benefícios para a administração, tem-se a quantidade de propostas do Executivo aprovadas pelo Congresso assim como a quantidade encaminhada.
          Ao contrário da ideia difundida pela histeria coletiva das redes sociais e refletida nas manadas nelas abundantes, dispostas a se jogarem no precipício, se a besta-líder (ou o besta), em veloz galope, não frear repentinamente, como nunca freia, induzindo as demais, de duas patas, a segui-la no mergulho fatal, o governo Temer, desde o primeiro de Fernando Henrique Cardoso, é o de menor custo de governança de todos até hoje, pois consegue melhores resultados gastando menos.
          Reparem, estamos falando de recursos constantes do orçamento e de nomeações feitas por quem competente para fazê-las. Ilegalidade houvesse, Janot teria aplaudido de pé, como na arena de touros? FHC, Lula e Dilma liberaram emendas para sustentar seus governos, com muito menos eficiência do que o atual presidente.
          Aos comparativos. Na escala de 0 a 100 do índice, o governo de Michel Temer teve média de 15,4 pontos como custo de administrar a base. Sabem de quanto foi a mesma medida nos governos de FHC, esse de agora pregando o abandono do governo pelo PSDB? No primeiro mandato, 36 pontos, mais do dobro do número de Temer. Espantado, caro leitor? Pois no segundo, saiba disto, Fernando Henrique quase dobrou sua própria marca, chegando a 59,5 pontos, e saiba também que o PSDB, partido dele, é paladino da moral e bons costumes, clamando contra a “compra” de votos no Congresso.
          Tem mais. No primeiro período de Dilma, essa do búlgaro antigo, o índice chegou a um número de dar nó na cabeça, de 88,1 pontos, baixando para 58 no segundo. E agora, o grande vencedor do dia, Lula da Silva, com 90,6 (!) pontos no primeiro mandato. No segundo, como dizer isso, já sei, o número matador de 95,2 pontos – quase o máximo possível de ser alcançado. Afora esse gasto sem freios para conseguir votos nos períodos petistas, o PT sempre levou uma quantidade de ministérios desproporcional a sua bancada no Congresso, para irritação de seus aliados e retirada de apoio na hora do impeachment de Dilma.
           Mas é o PT a dizer das emendas usadas por Temer para evitar ser derrubado por Janot e Joesley: “Deveriam ser gastas em educação”.

Infestação

Jornal O Estado do Maranhão

          A infestação da maioria das redações dos grandes veículos de comunicação pelo “pensamento” esquerdista é matéria – uso esta palavra por ser ela objeto de veneração nesses lugares sagrados, onde existem altares a seu culto e se repete a toda hora o mantra sobre matéria atrair matéria – de um dos poucos consensos no Brasil, país tão disposto a tudo transformar em discórdia, até mesmo os argumentos acerca de comunistas terem direito de morar no Leblon, ou não terem, em apartamento com vista para o mar. Eles têm, sim, pobrezinhos! Nessas redações militam mais comunistas, é avaliação consensual, do que na China inteira, país nominalmente socialista, mas, na prática, capitalista, sendo esta a razão de o país vir crescendo tanto há tanto tempo, não por causa de imaginária sabedoria milenar chinesa.
          Pois são essas hordas de passivistas políticos cheios de indignação teórica (verdadeiros passivistas não vão às ruas, apenas insuflam as massas) que fazem proclamações sobre o “recuo” do presidente Temer, ao som de trombetas modernas de uso na internet, não só em impressos em jornal, a cada lance do complexo jogo político pela aprovação de medidas propostas pelo Executivo à Câmara e ao Senado, com o fim de tirar o país do buraco onde se encontrava até poucos meses atrás, metido lá pelas administrações petistas, durante 14 anos. O tom dos anúncios faz pensar a quem os lê pisando distraído nas estrelas que os projetos são de interesse pessoal do presidente e vitais à sobrevivência dele, de Michelzinho e de Marcelinha. O mais chocante, porém, é, nas proclamações, perceber-se assombrosa ignorância sobre o fazer político democrático.
          Se o Legislativo fosse obrigado a aprovar sem alterações os projetos que ali chegam, estaríamos na Coreia do Norte, não no Brasil. O recuo é apenas a aplicação da regra política mais elementar: cede-se em um ponto para garantir outro. Dilma e o PT tratavam o Congresso e as lideranças políticas a chicotadas. Terminaram sem mel nem cabaça. Afoitos, queriam ganhar tudo, e perderam. Temer, ao contrário, venceu todas as disputas até aqui, livrando o Brasil do caos. Se Dilma tivesse continuado, seria a queridinha das redações, dos blogs sujos e de Dallagnol – adepto do assassinato da moral pelo moralismo –, embora com o país no fundo do poço, com água pelo pescoço e sob forte temporal.
           Estas são marcas de habilidade: saber negociar; avaliar corretamente o momento de ceder ou não; agregar pessoas e não as desagregar, metendo-lhes os pés no traseiro; não se deixar levar pelas próprias idiossincrasias e as de outros; não subestimar os adversários, primeiro passo para a derrota certa. Em resumo, ser um político na melhor acepção da palavra. Não muitos possuem essas qualidades, como Temer possui, entre esses o presidente Sarney, que as tem de sobra.
          No Maranhão, as promessas de mudanças, sobretudo na economia e na política, prometidas há três anos em discurso com resquícios do obsoleto pensamento comuno-estruturalista, não se cumpriram nem se cumprirão. A ação da Polícia Federal e de diversos órgãos de controle mostra muito bem essa verdade. Vemos, em verdade, desculpas também velhas, no estilo Lula: “Eu não sabia, a culpa é do passado”.

12 de julho de 2017

Condenação de Lula por Moro

Leiam aqui a parte final da decisão de Moro sobre Lula. O documento original inteiro tem mais de 200 páginas. A numeração, iniciando-se em 948, pois os itens de 1 a 947 não aparecem, é a mesma do documento original.


948. Luiz Inácio Lula da Silva

Para o crime de corrupção ativa: Luiz Inácio Lula da Silva responde a outras ações penais, inclusive perante este Juízo, mas sem ainda julgamento, motivo pelo qual deve ser considerado como sem antecedentes negativos. Conduta social, motivos, comportamento da vítima são elementos neutros. Circunstâncias devem ser valoradas negativamente. A prática do crime corrupção envolveu a destinação de dezesseis milhões de reais a agentes políticos do Partido dos Trabalhadores, um valor muito expressivo. Além disso, o crime foi praticado em um esquema criminoso mais amplo no qual o pagamento de propinas havia se tornado rotina. Consequências também devem ser valoradas negativamente, pois o custo da propina foi repassado à Petrobrás, através da cobrança de preço superior à estimativa, aliás propiciado pela corrupção, com o que a estatal ainda arcou com o prejuízo no valor equivalente. A culpabilidade é elevada. O condenado recebeu vantagem indevida em decorrência do cargo de Presidente da República, ou seja, de mandatário maior. A responsabilidade de um Presidente da República é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes. Isso sem olvidar que o crime se insere em um contexto mais amplo, de um esquema de corrupção sistêmica na Petrobras e de uma relação espúria entre ele o Grupo OAS. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada, o que também deve ser valorado negativamente. Tal vetorial também poderia ser enquadrada como negativa a título de personalidade. Considerando três vetoriais negativas, de especial reprovação, fixo, para o crime de corrupção passiva, pena de cinco anos de reclusão.

Reduzo a pena em seis meses pela atenuante do art. 65, I, do CP.

Não cabe a agravante pretendida pelo MPF do art. 62, II, "a", uma vez que seria bis in idem com a causa de aumento do §1o do art. 317 do CP.

Tendo havido a prática de atos de ofício com infração do dever funcional, itens 886-891, aplico a causa de aumento do §1o do art. 317 do CP, elevando-a para seis anos de reclusão.

Fixo multa proporcional para a corrupção em cento e cinquenta dias
multa.

Considerando a dimensão dos crimes e especialmente renda declarada de Luiz Inácio Lula da Silva (evento 3, comp227, cerca de R$ 952.814,00 em lucros e dividendos recebidos da LILS Palestras só no ano de 2016), fixo o dia multa em cinco salários mínimos vigentes ao tempo do último ato criminoso que fixo em 06/2014.

Para o crime de lavagem: Luiz Inácio Lula da Silva responde a outras ações penais, inclusive perante este Juízo, mas sem ainda julgamento, motivo pelo qual deve ser considerado como sem antecedentes negativos. Conduta social, motivos, comportamento da vítima são elementos neutros. Circunstâncias devem ser consideradas neutras, uma vez que a lavagem consistente na ocultação do real titular do imóvel e do real beneficiário das reformas não se revestiu de especial complexidade. A culpabilidade é elevada. O condenado ocultou e dissimulou vantagem indevida recebida em decorrência do cargo de Presidente da República, ou seja, de mandatário maior. A responsabilidade de um Presidente da República é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes. Isso sem olvidar que o crime se insere em um contexto mais amplo, de um esquema de corrupção sistêmica na Petrobras e de uma relação espúria entre ele o Grupo OAS. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada, o que também deve ser valorado negativamente. Considerando uma vetorial negativa, de especial reprovação, fixo, para o crime de lavagem, pena de quatro anos de reclusão.

Reduzo a pena em seis meses pela atenuante do art. 65, I, do CP.

Não há causas de aumento ou de diminuição. Não se aplica a causa de aumento do §4o do art. 1o da Lei n.o 9.613/1998, pois se trata de um único crime de lavagem, sem prática reiterada. Quanto à prática da lavagem por intermédio de organização criminosa, os atos de lavagem ocorreram no âmbito da OAS Empreendimentos e não no âmbito do grupo criminoso organizado para lesar a Petrobrás.

Fixo multa proporcional para a lavagem em trinta e cinco dias multa.

Considerando a dimensão dos crimes e especialmente renda declarada de Luiz Inácio Lula da Silva (evento 3, comp227, cerca de R$ 952.814,00 em lucros e dividendos recebidos da LILS Palestras só no ano de 2016), fixo o dia multa em cinco salários mínimos vigentes ao tempo do último ato criminoso que fixo em 12/2014.

Entre os crimes de corrupção e de lavagem, há concurso material, motivo pelo qual as penas somadas chegam a nove anos e seis meses de reclusão, que reputo definitivas para o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Quanto às multas deverão ser convertidas em valor e somadas.

Considerando as regras do art. 33 do Código Penal, fixo o regime fechado para o início de cumprimento da pena. A progressão de regime fica, em princípio, condicionada à reparação do dano no termos do art. 33, §4o, do CP.

949. Em decorrência da condenação pelo crime de lavagem, decreto, com base no art. 7o, II, da Lei no 9.613/1998, a interdição de José Adelmário Pinheiro Filho e Luiz Inácio Lula da Silva, para o exercício de cargo ou função pública ou de diretor, membro de conselho ou de gerência das pessoas jurídicas referidas no art. 9o da mesma lei pelo dobro do tempo da pena privativa de liberdade.

950. Considerando que o apartamento 164-A, triplex, Edifício Salina, Condomínio Solaris, no Guarujá, matrícula 104801 do Registro de Imóveis do Guarujá, é produto de crime de corrupção e de lavagem de dinheiro, decreto o confisco, com base no art. 91, II, "b", do CP.

951. A fim de assegurar o confisco, decreto o sequestro sobre o referido bem. Independentemente do trânsito em julgado, expeça-se precatória para lavratura do termo de sequestro e para registrar o confisco junto ao Registro de Imóveis. Desnecessária no momento avaliação do bem.

952. Independentemente do trânsito em julgado, oficie-se ao Juízo no processo de recuperação judicial que tramita perante a 1a Vara de Falência e Recuperações Judiciais da Justiça Estadual de São Paulo (processo 0018687-94.2015.8.26.01000), informando o sequestro e confisco do bem como produto de crime e que, portanto, ele não pode mais ser considerado como garantia em processos cíveis.

953. Necessário estimar o valor mínimo para reparação dos danos decorrentes do crime, nos termos do art. 387, IV, do CPP. O MPF calculou o valor com base no total da vantagem indevida acertada nos contratos do Consórcio CONPAR e RNEST/CONEST, em cerca de 3% sobre o valor deles. Reputa-se, mais apropriado, como valor mínimo limitá-lo ao montante destinado à conta corrente geral de propinas do Grupo OAS com agentes do Partido dos Trabalhadores, ou seja, em dezesseis milhões de reais, a ser corrigido monetariamente e agregado de 0,5% de juros simples ao mês a partir de 10/12/2009. Evidentemente, no cálculo da indenização, deverão ser descontados os valores confiscados relativamente ao apartamento.

954. Independentemente do trânsito em julgado, levanto a apreensão autorizada no processo 5006617-29.2016.4.04.7000 sobre o acervo presidencial que se encontra atualmente depositado e lacrado junto ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, não havendo mais motivo para mantê-lo.

955. Deverão os condenados também arcar com as custas processuais.

956. José Adelmário Pinheiro Filho está preso cautelarmente por outro processo, ação penal 5022179-78.2016.4.04.7000, e logo dará início ao cumprimento da pena da condenação em segunda instância na ação penal 5083376-05.2014.4.04.7000. Agenor Franklin Magalhães Medeiros logo dará início ao cumprimento da pena da condenação em segunda instância na ação penal 5083376-05.2014.4.04.7000. No contexto, desnecessário impor-lhes também na presente ação penal a prisão preventiva.

957. O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu ao processo em liberdade. Há depoimentos de pelo menos duas pessoas no sentido de que ele teria orientado a destruição de provas, de José Adelmário Pinheiro Filho (itens 536-537) tomado neste processo, e ainda de Renato de Souza Duque. O depoimento deste último foi tomado, porém, em outra ação penal, de no 5054932- 88.2016.4.04.7000.

958. Como defesa na presente ação penal, tem ele, orientado por seus advogados, adotado táticas bastante questionáveis, como de intimidação do ora julgador, com a propositura de queixa-crime improcedente, e de intimidação de outros agentes da lei, Procurador da República e Delegado, com a propositura de ações de indenização por crimes contra a honra. Até mesmo promoveu ação de indenização contra testemunha e que foi julgada improcedente, além de ação de indenização contra jornalistas que revelaram fatos relevantes sobre o presente caso, também julgada improcedente (tópico II.1 a II.4). Tem ainda proferido declarações públicas no mínimo inadequadas sobre o processo, por exemplo sugerindo que se assumir o poder irá prender os Procuradores da República ou Delegados da Polícia Federal (05 de maio de 2017, "se eles não me prenderem logo quem sabe um dia eu mando prendê-los pelas mentiras que eles contam, conformehttp://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/se-eles-nao-me-prenderem-logo-quem-sabe-eu-mando-prende-los-diz-lula/). Essas condutas são inapropriadas e revelam tentativa de intimidação da Justiça, dos agentes da lei e até da imprensa para que não cumpram o seu dever.

959. Aliando esse comportamento com os episódios de orientação a terceiros para destruição de provas, até caberia cogitar a decretação da prisão preventiva do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

960. Entrentanto, considerando que a prisão cautelar de um ex- Presidente da República não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela Corte de Apelação antes de se extrair as consequências próprias da condenação. Assim, poderá o ex-Presidente Luiz apresentar a sua apelação em liberdade.

961. Por fim, registre-se que a presente condenação não traz a este julgador qualquer satisfação pessoal, pelo contrário. É de todo lamentável que um ex-Presidente da República seja condenado criminalmente, mas a causa disso são os crimes por ele praticados e a culpa não é da regular aplicação da lei. Prevalece, enfim, o ditado "não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você" (uma adaptação livre de "be you never so high the law is above you").

962. Transitada em julgado, lancem o nome dos condenados no rol dos culpados. Procedam-se às anotações e comunicações de praxe (inclusive ao TRE, para os fins do artigo 15, III, da Constituição Federal).

Curitiba, 12 de julho de 2017. 


11 de julho de 2017

Aos progressistas

Luiz Alfredo Raposo


Economista

Fomos às ruas pela saída da fabricante de uma mega-calamidade econômica. A chefe de governo cega e surda à maior roubalheira da história universal da infâmia. O animal político que findou sem apoio congressual do próprio partido (vide DRU 2015). Com um time de bambas, o substituto faz um programa econômico sensato e muda a gestão das estatais. Melhora o jogo com o Congresso e não perde uma. Começa a funcionar e maio era o mês das reformas. Indigestas à alta burocracia e à elite sindical, sem elas, dizia o governo, o que víamos não passava de uma visita da saúde. Depois, sabia Deus... Tudo tomava jeito de final feliz, quando vem o suspeitíssimo episódio da gravação do empresário-delator.

Gravação de banalidade atroz. O notável era ir alguém, com o placet de altas autoridades, espionar o chefe da Nação. Mas aí entra a coisa nossa da inversão da culpa: o crime está, não em estuprar ou espionar, mas em ser estuprado ou espionado. Lembram o ex-presidente do BNDES (1998), grampeado querendo botar competição num leilão de teles? A inversão da culpa juntou-se aqui à espantosa postura das autoridades judiciárias, ao alarido de certa mídia e à onda moralista que a Lava Jato levantou e o ardor dos jovens-turcos do MP engrossou. O moralista não sabe que o melhor é prevenir. E só vê remédio em fogueira para os corruptos e rejeição em bloco do fazer político. Nesse caldo cozinha-se a crise político-institucional que põe o país em clima de saloon.

E grupos de centro-esquerda depressa gritam Fora Temer! O presidente recebeu e ouviu! Visionarismo ou coisa de casaca? Mais pungente: jornada interior, rumo à infância de sacristia. Ao moralismo chapado, à manjada “beatice pequeno-burguesa”. Ao nojo dos métodos políticos. À assimilação de acordo a conchavo, falcatrua. À incompreensão de que o jogo supõe dois lados. À satanização do interesse particular. Adeus, anos de estudo do pensamento político, do caráter superestrutural de moral e política, agora basta a pruderie. E Temer é mostruário dos vícios da velha política. Mas que dizer do espião de topete e das togas complacentes?

Olhem para trás. Temer não fez tudo ao contrário de Dilma? Imaginem um vice do PT, PCdoB! Não vale nada que o PIB se recupere, cessem as demissões, a inflação e os juros caiam forte? Fez-se algo de maior efeito moral do que faxinar Petrobras, BNDES etc.? Não foi grandeza propor saneamento de longo prazo com reformas, à custa de popularidade? Olhem para a frente. Não trará o ocaso de Temer o fim das reformas? E sem o apoio do centro, nada delas nem de retomada firme, trunfo único do modelo atual? E não cairemos nos guerreiros do aventureirismo, na falta de escrúpulos que deu no que deu, ou num milagreiro saído do limbo? As pesquisas estão aí, escolham!

11 de junho de 2017

O Paraíso-presídio

Jornal O Estado do Maranhão

          Em verdade vos digo, limpeza ética total, de anúncio de detergente, não foi feita para este mundo sublunar, é tão só tarefa do mundo de Janot e de seus bem-aventurados companheiros de MPF. Ninguém tão puro como eles. E eis que, comovidos, assistimos à tentativa deles de criar no trópico o “novo homem”, à sua imagem e semelhança, perfeito, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, em tudo diferente do velho conhecido nosso, já nascido em pecado, feito de desejo e de pó, como no poema de Auden, com defeito e virtude, egoísmo e altruísmo (mesmo que este possa ser uma forma disfarçada de egoísmo, como dizem os céticos extremados).
          Falta a esse pessoal o estudo da História, com agá maiúsculo. Os bolcheviques russos também cederam à tentação dessa utopia e partiram para a criação do novo homem e do paraíso proletário sobre a Terra. Mas, erraram a mão, usaram o que a história mostra ser a receita da tirania: negaram-se a criar instituições capazes de domar os instintos humanos mais nocivos à vida social e deixar florescer em liberdade os demais, benéficos. Quando perceberam resistência do homem de antes, mandaram às favas a solidariedade e decidiram ir em frente. O sofrimento gerado pela fome e tortura dele seria preço justo pela felicidade das novas e radiosas gerações. No fim, criaram, sobre os cadáveres de milhões, o homem novo e infeliz e se fizeram casta à parte, uns iluminados pela barbárie e pela convicção da justeza de sua missão redentora. Pelo que, em língua inglesa, se chama pejorativamente “self-righteousness”, a certeza da superioridade moral sobre o homem médio, nós, pobres cidadãos comuns.
          Aqui também, agora, se gesta o embate dos poucos bons em prol do novo homem e contra tudo o que há de degradado nos filhos de Eva. E ai de quem recalcitrar, agarrado à tábua das leis. Ele não será ouvido e sua voz soará no deserto. E ninguém fiscalizará os fiscais, na nobre missão. Alegria é soltar os mastins, que trabalharão, sem freio nenhum, varrendo da Terra Brasilis os impuros de coração, os pecadores sem remissão. De quebra (resta sempre em nós um pouco de nossos pais), ficará na boca aquele gostinho perverso de vingança.
          O trabalho será para infindáveis gerações. Feita a primeira limpeza, com o afastamento dos corruptos, uma segunda, uma terceira e infinitas outras serão necessárias, pois, como Janot sabe, a espécie humana é o que é. Não o bom selvagem de Rousseau nem o homo lupus hominis de Hobbes. Somos os dois. Limpeza assim talvez termine criando um paraíso-presídio, ou limpando para sempre o território da espécie zoológica homo sapiens.
          A fim de escapar à dependência dessa natureza boa e má, melhor seria acordar, encarar a tarefa do modo certo e edificar não um mundo-presídio, mas algo cuja arquitetura institucional desencoraje o mal e incentive o bem geral, sem necessidade de messias nem de mastins nem de professores de moral nem de antônios conselheiros. Mas com trancas e cadeados nos lugares certos. Assim, Janot, esse anjo atormentado, enfim nos deixará em paz.

30 de maio de 2017

Um substituto para Temer


Por Luiz Alfredo Raposo
Economista
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 30/5/2017

Dobrado o cabo dos 70, adeus tempo do acanhamentoDe calar ou medir as palavrasante um perigo grave e claríssimoDaí o mandamento deste bilhete. Contra a corrente, sim. Embebido, porém, de algo que Unamunoformulou como ninguémviviré esperándoteEsperanza!
Vejamos: o quadro fiscal é grave. O déficit primário federal de 2017 deve ir a R$ 200 bi(lhões)Com os juros, de uns R$ 300 bi, eleva-se a dívida pública federal (R$3,2 tri) em 15%! Alucinante e insustentável. Nesse ritmo, emquatro anos, o Tesouro estará com água pelo nariz. E o Banco Central, é a cara feia da necessidade, passará à função (inconstitucional) de financiador do Tesouro.Recebidos os títulos, os pagará e reterá ou revenderá com deságios (prejuízos) cada vez maiores. É o cataclismo da moeda falsa, da quebradeira do Estado, da  hiperinflação. 
Ora, apenas para não brigar com os fatoso governo tem combatido bem. Equipe econômica de primeira, com a agenda certa. Estatais críticas em mãos de executivos tarimbadosTime de craques no jogo político (no Palácio, Padilha, Moreira Franco, Imbassahy; no Congresso, Jucá, André Moura, Aguinaldo Ribeiro e outros). Liderados por um “treinador” que conhecem e admiram há décadas, eles têm entregue sua alma política: sangue frio, suor e lábia. Resultado: a economia melhora. E nos matchscongressuais, mesmo os mais exigentes, o governo saiu vitorioso. Prorrogação e aumento da DRU, lei de repatriação de recursos, PEC do Teto, lei de liberalização da exploração do pré-sal, lei de reforma curricular do ensino médio, liberação do FGTS inativo etc.
Agora, são as reformas trabalhista e previdenciária que, decisivas para deter o desastre, navegam CONTRAinteresses enormes, nunca dantes afetados. E é numa hora assim que vem essa tormenta FABRICADASim, por tudo o que sei, o que houve foi uma dupla de meliantes que tentou flagrar Temer nu, pelo buraco da fechadura. E gravou uma conversa como tantas outras, duas ou três palavrinhas que, vai-se ver, nada dizem. Mas na mídia,aquele auêE um criminoso: a vítima!
Temer sente, claudica, se abate, e vem logo a procura deuma “solução”, um substituto. União nacional?Impossível! Como  negociar com quem recusreformas que, só elas, tirarão o país do atoleiro? Nem interlocutor haveria, inconcebível o diálogo com um capo di mafia réu em meia dúzia de ações criminais e, talvez, em breve condenado. E o grupo no poder? O PMDB não tem candidato, mas aceita um do PSDB? E ninguém de fora da classe política será escolhido, é minha aposta. Nem freira, nem beletrista... Quem entrar topará com o PT de sempre. E, entre os seus, avulso e sem divisas, gozará damesma ascendência e viverá (ou morrerá) dos mesmossustos que um tratador novato num zoo. Que esperar daí?A conclusão é que, antes coxo que tonto, o melhor substituto para Temer é Temer.

Machado de Assis no Amazon