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Sérgio Barreto

Jornal O Estado do Maranhão Os amigos chegavam aos poucos, a partir das dez horas, buzinavam, abriam eles mesmos o portão e entravam sem pedir licença. Iam direto à cozinha, abriam a geladeira, tiravam uma cerveja, ou uma coca-cola, no congelador desde cedo, e sentavam-se a fim de conversar nos sábados pela manhã, na casa do Ipase. Falávamos de tudo e de nada, de todos e de ninguém. Conversávamos sobre coisas aparentemente triviais. O futebol, por exemplo, especialmente na época de Copa do Mundo, como nestes dias. Isso, acho, trouxe-me à lembrança agora aquelas manhãs em que nossos problemas e angústias do dia-a-dia desapareciam durante algumas horas. Perguntávamos pelas pessoas e por Zico, o cachorro pinsher da casa. Havia sumido de novo? O dono da casa, com um característico senso de humor e com um exagero muito próprio, dizia nunca ter visto tanto choro em toda sua vida como quando chegou a notícia do atropelamento que deixara o animal cego de um olho e capenga. “Quando eu morrer, v...

Brasil 2000

Jornal O Estado do Maranhão A construção de uma nação é uma empreitada de gerações, de caráter coletivo, sem donos nem chefes. Tem sido um equívoco persistente de muitos ver a história como um feito espetacular de homens de qualidades extraordinárias. Pela força da vontade, disciplina e capacidade de mando eles seriam capazes de moldar a trajetória dos povos, não importando a história anterior destes, seu ambiente natural e cultural, suas relações com sociedades diferentes das suas e outros fatores, poucas vezes passíveis de serem controlados por qualquer pessoa individualmente. Ao assinalar esse engano, não quero negar a importância dos líderes. Todo grupo humano, por necessidade de sobrevivência, precisa de uma direção. Como os talentos são distribuídos desigualmente, embora tenham uma distribuição normal, haverá sempre os indivíduos com menos habilidade para conduzir e os com mais. Estes tenderão a exercitá-la de fato. É um fenômeno natural. Desejo, apenas, enfatizar a grande import...

Bem da pátria

Jornal O Estado do Maranhão Saddam Hussein, o chefão do Iraque, é uma figura conhecida no mundo todo. As pessoas pensam nele apenas como um sujeito mau, com um bigode no estilo Stálin, que vive aterrorizando o povo iraquiano, com a prática de tiro ao alvo, ou melhor, de tiro à oposição.  Mas, como as agências de notícias internacionais, em especial as americanas, vivem dizendo, ele vai além disso. É a própria encarnação de Satanás na Terra, já que suas forças armadas possuem armas de destruição em massa. Os americanos, a julgar pela maneira de falar deles, não têm tal tipo de armamento nem sabiam que o Iraque o tinha durante a guerra deste país, então aliado dos Estados Unidos, contra o Irã. De qualquer modo, esse tipo de equipamento não pode ficar nas mãos de um diabólico qualquer como Saddam, um dos articuladores, junto, imaginem, com os inimigos iranianos, do eixo do mal, obsessivamente mencionado pelo presidente Bush, filho. No máximo, pode ficar sob o controle de caubóis texan...

Lua, júpiter, marte...

Jornal O Estado do Maranhão Escrevem-me alguns leitores. Dizem ter percebido algo estranho em meu artigo do último domingo. É que não havia nenhuma relação do texto com o título. Além disso, este era repetição de outro, “Todos os Santos”, de um artigo meu anterior, de março deste ano, sobre o livro Olhos da alma: Escola Maranhense de Imaginária , de autoria de Kátia Santos Bogéa, Emanuela Sousa Ribeiro e Stella Regina Soares de Brito. No artigo da semana passada, o assunto era diferente. Não era sobre santos, embora falasse do céu. Têm razão os leitores. Eu mesmo fiquei surpreso com o título que não dei. Explico. Um dia desses, eu ouvia uma bela canção popular americana, chamada “Fly me to the Moon”, do compositor Bart Howard. Nela, há o romântico pedido de um namorado a sua amada de irem juntos à Lua, a fim de cantar entre os astros, e a Júpiter e Marte, somente para ver como é a primavera lá. Eu me lembrei, então, dos avanços da humanidade na conquista do espaço sideral. Escrevi sobr...

Júpiter e marte

Jornal O Estado do Maranhão Naqueles dias, fixados mais tarde em nossas memórias como mágicos e inesquecíveis, corríamos à noite para o terraço de nossa casa, para ver uma estrela que cruzava regularmente o céu, sobre nossas cabeças, de um extremo do horizonte a outro. A família toda ia lá uma hora ou outra. Mas somente eu, nos meus nove anos de idade, ficava, depois do jantar, até tarde, esperando pela volta do astro a cada hora e meia, fascinado com aquela visão da incansável andarilha. Ela continuaria seu passeio celeste por seis meses ainda. Era o Sputnik, uma esfera metálica de 84 quilos, o primeiro artefato humano lançado ao espaço, em órbita da Terra. Ninguém poderia chamá-lo por outro nome, diferente desse de estrela. Pelo menos quem o visse correndo brilhante pelos céus como um ser mitológico em sua carruagem de fogo, nas límpidas noites sem nuvens, pontilhadas das outras estrelas. Mas, foi apelidado de satélite artificial, quem sabe por distraída analogia com a Lua. Tornou-se...

Disciplina filipina

Jornal O Estado do Maranhão De louco e técnico de futebol, todo brasileiro tem um pouco. Por essa razão, resolvi meter a colher nessa história da cartilha de bom comportamento da seleção brasileira de futebol que irá à Copa do Mundo deste ano no Japão e na Coréia. O nosso técnico, o simpático e disciplinador coronel Filipão, dono  do estilo os-brutos-também-amam, resolveu estabelecer com esse decreto esportivo, verdadeira Ordenação Filipina dos pampas, regras rigorosas a serem seguidas pelos jogadores. Embora tenha um nome italiano, Filipe Scolari – ou pré-Scolari segundo a turma do humorístico da TV, Casseta e Planeta –, é um verdadeiro alemão quando se trata de manter a disciplina de seus comandados. Escreveu, não leu a cartilha, o pau comeu. Escapadas noturnas, conversas ao celular, atrasos são faltas imperdoáveis. Sexo, nem pensar. Dizem ser ele o primeiro a dar o exemplo de abstinência. Qualquer um, quando surpreendido em pecado, como Romário, é punido com a exclusão do “grupo...

Falsidades

Jornal O Estado do Maranhão Vem da rica e culta Alemanha uma história inusitada. O primeiro-ministro daquele país, Gerhard Schroder, foi “acusado” de pintar seu cabelo, antes supostamente grisalho. Os alemães estão em campanha para eleições gerais. No vale-tudo próprio do período, os partidos de oposição a Schroder, aproveitando-se de uma informação de um desses jornais popularescos, comuns no mundo todo, dizem ser ele tão enganador quanto seus cabelos pintados. Ele não teria sido honesto o suficiente para revelar o trato que dera no cabelo, para simular ser mais jovem do que realmente é. Se ele engana com o cabelo, enganará também com o dinheiro público, parece ser o raciocínio alemão. É como se o sujeito que pinta o cabelo não passase de um vulgar estelionatário, pelo uso de uma imagem falsa. O primeiro-ministro reagiu imediatamente e processou, ou ameaça processar, o jornal que deu a informação, esta sim falsa, segundo ele. Isso me faz lembrar a primeira candidatura de Richard Nixon...