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Arrumação

Jornal O Estado do Maranhão           Bibliotecas são modelos perfeitos da lei da entropia, tendência de aumento, com o passar do tempo, do grau de desorganização de um sistema fechado. (Suponhamos que elas constituam sistemas fechados). Essa ideia, visitante frequente de minhas divagações noturnas, se revelou concreta recentemente quando a percepção da bagunça imperante em minha biblioteca quase me levou ao desespero e me alertou acerca da necessidade de evitar os custos de horas e horas perdidas em procuras inúteis. Livros que eu tinha a certeza de gozarem de tranquilo repouso nas prateleiras não podiam ser localizados, justamente na hora de grande necessidade. Papéis importantes não apareciam. Aquele recorte de jornal, a ser usado algum dia como fonte na produção de um texto importante e transcendental, de interesse da humanidade, sumido. Os desaparecimentos me lembravam daqueles dos personagens de A revolta de Atlas , de Ayn Rand. A ...

Um livro de Tribuzi

  Jornal O Estado do Maranhão Bandeira Tribuzi não era apenas grande poeta. Homem atento a sua própria época e à sociedade em que vivia, estudava a história do Maranhão com a preocupação permanente de encontrar soluções dos problemas econômicos e sociais de sua terra. Os fatos do passado não se apresentavam a ele como mera sucessão de lutas políticas e de poder, de episódios sem conexões aparentes, de heroísmos e vilanias absolutos, mas de um jogo de forças e interesses cuja compreensão só poderia surgir do estudo da história econômica e da conformação cultural de um povo. Daí porque esse estudioso das condições materiais de vida dos maranhenses, investigando o passado, voltava-se para o futuro, colocando o ser humano no centro de suas preocupações, tanto quanto em sua poesia. Não alimentava mitologias sobre nossa origem nem se apegava a “eras de ouro”. Basta ver, como comprovação dessa atitude, a revolução literária entre nós liderada por ele, afastando o bolor cultural de entã...

Sousinha

Jornal O Estado do Maranhão             Leio sobre história da ciência na edição especial n o. 2 da Revista de História da Biblioteca Nacional , numa entrevista do doutor Ubiratan d’Ambrosio, professor emérito da Unicamp. Ele tem mais de 200 obras publicadas, muitas sobre a história da matemática. Suas declarações me fizeram lembrar meu discurso de posse na Academia Maranhense de Letras em 2004. Fiz então uma referência a um trabalho dele, cujo título é Joaquim Gomes de Sousa, o Sousinha (1829-1864) . Transcrevo pequeno trecho: “Um estudo da vida e obras da figura fascinante de Joaquim Gomes de Sousa falta na historiografia da matemática brasileira”. É que Sousinha é o patrono da cadeira que ocupo na AML. Aí a razão de minha lembrança imediata. Na entrevista, d’Ambrosio se refere a Sousinha. A menção veio a propósito de uma pergunta sobre o desenvolvimento dessa ciência no Brasil. Vinda de uma autoridade no assunto, como o professor...

A missa do galo

Jornal O Estado do Maranhão Entre as muitas obras primas do conto produzidas por Machado de Assis, uma é de minha especial predileção, Missa do Galo . O conto é narrado em primeira pessoa por um adulto, Nogueira, incapaz de entender acontecimentos de muitos anos antes, na véspera de Natal, na casa de Meneses, escrivão, contando o rapaz de então dezessete anos. Era ali que Nogueira se hospedava quando vinha de Mangaratiba. Conceição, casada com o dono da casa, tinha trinta anos. Naquela noite especial, o escrivão “foi ao teatro”, senha que usava quando de suas idas à casa da amante, local de seus pernoites uma vez por semana. As pessoas da casa – a esposa, sua mãe e duas escravas – já estavam recolhidas. Nogueira ficou na sala à espera de um amigo com quem iria à Missa do Galo à meia noite em uma igreja próxima. Depois de algum tempo, Conceição veio à sala. Na conversa entre ela e o rapaz, nada acontece objetivamente, mas tudo, subjetivamente. O comportamento dela é ambíguo, como em...

Sapo, queijo, nada

Jornal O Estado do Maranhão Eu morei 10 anos em Brasília onde, entre muitas coisas boas de sua concepção urbanística, há um sistema de endereços capaz de permitir a alguém de fora, sem experiência prévia com a cidade, uma orientação fácil, sem perda de tempo e sem necessidade de perguntas a ninguém no meio da rua. Bastam explicações sucintas sobre a lógica do sistema, tarefa de não mais de cinco ou dez minutos. Falo especificamente do Plano Piloto. A cidade foi concebida na forma de avião e construída sobre dois grandes eixos, referências fundamentais dos endereços. O eixo maior é o corpo, ou charuto, do avião. Na extremidade na direção leste, está a cabine do piloto, com a Praça dos Três Poderes, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Na outra, a oeste, uma grande Torre de TV, o Memorial JK, o Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal e diversos órgãos públicos. Entre os extremos estão os prédios dos ministérios e a catedral de Brasí...

Pacificação?

          Jornal O Estado do Maranhão           Pela obviedade de suas falhas, nunca me dei ao trabalho de comentar a política de segurança do Estado do Rio de Janeiro. Deveria ser evidente que, expulsa pelas UPPs – Unidade de Polícia Pacificadora das favelas onde se havia estabelecido e deitado raízes durante décadas, o narcotráfico iria procurar, o mais perto possível de sua base original de operações, local para continuar suas lucrativas atividades. Isso apenas se seus operadores não fossem presos. Não vi nos jornais informação sobre o número de encarcerados na “pacificação” e ninguém tem certeza sequer se tal objetivo estava nos planos das autoridades do Estado nem se elas pretendiam combater também as milícias. Vamos pensar. Se os bandidos não foram parar atrás das grades, onde se meteram? Na Coreia do Norte não, pois lá seriam presos ao entrar naquele paraíso terrestre da classe trabalha...

Lucchesi na ABL

Jornal O Estado do Maranhão            Faleceu no dia 6 deste mês, aos 92 anos, em Belo Horizonte, onde no mesmo dia teve o corpo sepultado, o padre Fernando Bastos de Ávila, ocupante durante 13 anos da cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras, fundada por Olavo Bilac, já ocupada por Odilo Costa Filho e cujo patrono é Gonçalves Dias. Sua posse na Academia deu-se no ano do quadricentenário da morte de José de Anchieta e tricentenário da de Antônio Vieira e s eu antecessor foi dom Marcos Barbosa. Segundo dom Dimas Lara Barbosa, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário-geral da CNBB, “sua biografia atesta a fidelidade de seu amor a Cristo e à Igreja no exercício de um longo e frutuoso ministério presbiteral”. O padre, membro da Companhia de Jesus desde 1935, fez em Roma, onde se ordenou em 1948, mestrado em Filosofia e Teologia, na Universidade Gregoriana. Em 1954, doutorou-se em Ciências Políticas e Sociais na Univer...