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Pode, Não Pode

Jornal O Estado do Maranhão Eu passei quase toda minha vida de adulto ouvindo condenações definitivas ao consumo de ovo. Comê-lo era suicidar-se aos poucos ou condenar-se a eternos dramas de consciência. Quem cometesse o pecado teria poucas chances de viver mais de 30 ou 40 anos. Com sorte, chegaria a 50, pois junto com o maldito viria o acúmulo inevitável de colesterol no sangue (do mau colesterol, evidentemente). Daí ao entupimento das artérias, com todas as apavorantes consequências sobre a saúde do corpo e do bolso de quem só podia ser um autodestrutivo, seria um passo. Um ataque de coração não era apenas uma possibilidade. Tratava-se de uma certeza, como a de o fisco cobrar impostos. No meu tempo de criança, no entanto, e depois, já bem crescido, eu comia, com a permissão de minha mãe, ovo diariamente no almoço e no jantar. Pobre ovo! Suportou por tanto tempo a pecha de assassino, embora assassino de sabor inigualável, assassino de quem muita gente não gostaria d...

O Mínimo do Mínimo

Jornal O Estado do Maranhão A imprensa costuma se referir à elevação anual da massa de salário proporcionada pela elevação do mínimo como equivalente ao crescimento do consumo global da economia. A Folha de S. Paulo recentemente deu em manchete: "Aumento do mínimo injeta R$ 21 bilhões e reduz crise", acrescentando que esse dinheiro todo ajudaria o setor de alimentos. De fato, o aumento do mínimo, a curto prazo, elevará a demanda por alimentos de parte das classes de renda mais baixas. O problema é saber se mais à frente essa demanda será mantida, ou seja, se o eventual aumento de hoje se manterá em termos reais pouco adiante. Qualquer leitor atento, todavia, poderá fazer a pergunta óbvia: Se por um simples decreto relativo ao salário mínimo, foi possível ao governo "injetar" na economia aquela montanha de dinheiro, por que então não injetou logo, pelo mesmo decreto, R$ 42 bilhões, R$ 84 bilhões ou um R$ 1 trilhão, acabando de uma só cane...

Fora o Fica

Jornal O Estado do Maranhão Têm sido recorrentes propostas feitas por parlamentares de permissão de um terceiro mandato presidencial, sob o argumento da vigente popularidade do presidente. Se ele está bem, pelo menos na opinião da maioria, por que mudar? Melhor, argumentam, é deixar as coisas como estão, em que pese a possibilidade de piora na avaliação de Lula por causa da crise econômica. Mudanças na forma como o governo é avaliado ainda não se materializaram, penso eu, porque, no Brasil, apenas agora os efeitos dos problemas econômicos globais começam a apresentar efeitos relevantes em termos de aumento no desemprego e diminuição da renda das famílias. Usando uma surrada metáfora futebolística tão ao gosto de Lula, em time que está ganhando não se mexe. Mexa-se até na Constituição, com o fim de permitir duas, ou, quem sabe, um número ilimitado de reeleições, mas não na equipe e muito menos no técnico. Com mais conveniência ainda, mantenha-se o presidente do time Brasil. Tudo iss...

Barak Hussein

Jornal O Estado do Maranhão , Barak Hussein Obama contrariou os desejos dos serviços de segurança dos Estados Unidos ao determinar que as normas até agora vigentes de uso de telefone celular pelo presidente mudem: “Eu mesmo uso o meu e, por favor, providenciem um à prova de escuta”. Se não foi exatamente assim, disse a mesma coisa com outras palavras. O mesmo vale com respeito ao uso da internet por ele. Conhecedor da rede mundial como usuário experiente, o presidente americano deseja enviar e receber seus próprios e-mails pessoais, sem ninguém servindo de intermediário, bisbilhotando sua conversa com a mulher, filhas e cachorro. O presidente começa a colocar sua marca nas políticas interna e externa americanas. Um enviado especial já está no Oriente Médio com a missão de tratar do conflito entre israelitas e palestino. Esperam-se daqui em diante abordagens menos parciais em favor de Israel de parte dos Estados Unidos. A vergonhosa prisão de Guantánamo, centro de tortura oficial, loc...

Conversionário

Jornal O Estado do Maranhão Eu sempre avaliei o Big Brother Brasil como fonte inesgotável de sabedoria. Era só ver um episódio no início da temporada do programa para certificar-me do acerto da avaliação. A diversidade de perfil dos participantes sempre foi garantia de diversidade de visões sobre os grandes problemas que afligem a humanidade, cada entendimento individual oferecendo um modo diferente de encarar a vida, de expor o que ia, ou vinha, na mente (e quantas vezes nos corpos!) deles, de mostrar a própria alma e, reconheçamos, partes íntimas da anatomia humana. Em outro plano, dúvidas sobre pesquisa científica pura e aplicada, a língua portuguesa, linguística, literatura, pintura, escultura, história, filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, economia, administração, direito, biologia, física, química, matemática, engenharia, astronomia, cosmologia e todos os demais ramos do conhecimento humano, dúvidas, eu dizia, do telespectador jamais ficam sem resposta bem elaborada...

Uma vida

Jornal O Estado do Maranhão Acabo de ler De fantasmas e loucura , do escritor maranhense radicado em Brasília, Pedro Braga dos Santos. O autor tem uma bibliografia diversificada que começa na sociologia, com Alcântara: a sociologia da festa do Divino (1980), A Ilha afortunada (1987) e O touro encantado da Ilha dos Lençóis:o sebastianismo no Maranhão (2001), passa pela história, com uma Pequena história da energia no Maranhão (1992) e transita por estudos no campo da ética, com Ética, direito e administração pública (2006), do direito, Manual de direito para engenheiros e arquitetos (2007) e Crime e sociedade (2008) e, finalmente, da literatura infantil, a exemplo de O lobo-guará e o bicho-folha (2002) e A ararinha-azul e outras histórias (2008). Agora Pedro nos oferece uma obra corajosa e franca, por seu autodesnudamento existencial, incomum nos escritores comuns, mas não naqueles, como ele, que têm algo relevante a dizer. O livro, de caráter memorialístico, narra a trajetór...

O Acordo Ortográfico II

Jornal O Estado do Maranhão Como dito na Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ao se analisar o conteúdo dos acordos anteriores, de 1945 e 1986, vê-se que seu objetivo era a imposição de uma unificação ortográfica absoluta ou quase. O de 1986 deveria obter tal resultado em 99,5% do vocabulário geral da língua. Sua principal proposta era de simplificação radical no sistema de acentuação gráfica, com a eliminação dos acentos nas palavras proparoxítonas e paroxítonas. Foi rejeitada pela opinião pública portuguesa. O de 1945 pretendia chegar a 100%. Os brasileiros recusaram-no porque, ao propor a manutenção das consoantes mudas ou não articuladas, ele promoveria a restauração dessas letras no Brasil, onde havia muito tinham sido eliminadas. Tentava também resolver a divergência de acentuação das vogais tônicas e e o, seguidas das consoantes nasais m e n, das palavras proparoxítonas, pela adoção da norma portuguesa. Exemplo: Antônio, no Brasil, e António, em Portug...