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Incertezas

Jornal O Estado do Maranhão Para as crianças de classe média como eu, nos anos cinqüenta no distante bairro do Areal, depois Monte Castelo, era um grande acontecimento ficar doente de cama, se isso não indicasse algo grave. Uma gripe, uma queda, uma garganta inflamada, como essa a me incomodar agora, ao nos prender em casa, depressa tornavam realidade nosso desejo não tão secreto de faltar às aulas pelo menos por um dia. Nessas ocasiões, meu pai pegava no centro da cidade um dos carros de praça da época, no Posto Vitória, telefone 1400, com seus choferes, hoje taxistas, conhecidos de toda na cidade, com seus belos e pesados carros importados, e trazia o médico pediatra (as médicas eram raras ou inexistentes) para ver os filhos que deixara sob os cuidados da minha mãe, que os considerava uns santos, ao contrário dos pequenos amigos deles, legítimos capetas em forma de gente. Eu via nos médicos uma aura mágica e indefinível. Não me passava pela cabeça continuar doente por mais de vinte ...

Se não agora, Quando?

Jornal O Estado do Maranhão A revista Veja publicou na semana passada uma reportagem sobre corrupção e desperdício nos municípios brasileiros. A chamada de capa referia-se a “Uma Praga Nacional”. Descontados os possíveis equívocos factuais e um ou outro exagero, penso que a revista reflete com bastante fidelidade a visão e as imagens que o povo brasileiro, em sua grande maioria, tem das administrações municipais. Raramente um mês passa sem se ler na imprensa notícias sobre irregularidades nelas, de norte a sul do Brasil, no Executivo e no Legislativo. As denúncias referem-se tanto às grandes cidades, como São Paulo, quanto às menores, de todas as regiões do país. Os prefeitos, presidentes de Câmaras e vereadores acusados têm apresentado em sua defesa explicações folclóricas, algumas, da mais autêntica desfaçatez, outras. Claro, os maus dirigentes não são a maioria. Sendo, porém, minoria atuante e não tão pequena assim, acabam revelando à sociedade algo de podre nesse reino. O prefeit...

A mensagem

Jornal O Estado do Maranhão Os últimos quinze dias foram para mim de verdadeira provação bíblica e indescritível angústia existencial, pois me vi privado sem aviso prévio do meu computador. Tal tragédia criou mil problemas à realização das mais corriqueiras tarefas de meu dia-a-dia, como, por exemplo, esta de maltraçar algumas linhas destinadas à publicação neste jornal. Para o ataque traiçoeiro à minha inseparável máquina, contribuíram em partes igualmente irritantes o ar salitroso do bairro do Olho D’água, que tudo corrói pacientemente, e a Companhia Energética do Maranhão - Cemar, que corrói nossa paciência toda e, não satisfeita, ainda faz oscilar a corrente elétrica, a fim evitar o perigo de os usuários esquecerem a qualidade desastrosa dos serviços da companhia. Nunca poderei esquecer a situação em que me encontrava. Cabeça baixa, olhos pregados no chão, olhar perdido e passos vacilantes, vagava apático pela cidade pensando na minha situação de dependência em relação a essa máqu...

Encantamentos

Jornal O Estado do Maranhão Havia encantamentos na terça-feira passada, dia 13 de abril, no Armazém da Estrela, à rua da Estrela no centro histórico de São Luís. Um deles eram as brincadeiras, as folias, as festas, os brinquedos, enfim, do Maranhão. Todos têm um encanto misterioso em suas próprias existências ou nas dos livros, como este em que foram retratados – dizer retratados é dizer melhor do que dizer fotografadas, porque é ir além da máquina fotográfica, mero instrumento para o registro da visão do artista – por Albani Ramos em Brinquedos encantados lançado entre as maiores estrelas do mundo cultural maranhense, com prefácio de José Sarney. O outro encantamento era o livro, pela beleza de suas imagens, que revelam a sensibilidade do autor para as manifestações populares de nossa cultura, e pelo cuidado de edição e bom-gosto de concepção e execução. Essa característica encantatória permite que se possa imaginar esse trabalho, creio eu, como realizado, intencionalmente ou não, p...

Sem dúvida

Jornal O Estado do Maranhão Será o Brasil um pária da comunidade internacional, que desrespeita acordos, planeja e executa golpes de Estado no exterior, ameaça militarmente países mais fracos respaldado por seu poderio militar atômico, e os invade, derrubando ditadores com o fim de substituí-los por outros mais confiáveis? Age como um senhor da guerra disposto a usar meios escusos para seus fins igualmente escusos? Pressiona seus parceiros comerciais para obter vantagens econômicas? Recusa-se a assinar tratados de controle da emissão de gases poluentes, apesar de lançá-los em quantidades imensas na atmosfera em prejuízo do ambiente no mundo todo? Será? Seremos uma nação condenada a causar medo? Seremos tão prepotentes assim? Nossa arrogância não tem limites? Uma notícia do Washington Post do dia 4 deste mês poderia justificar respostas positivas a todos essas perguntas. Disse o jornal norte-americano, requentando o café servido em dezembro do ano passado, que o Brasil proibiu inspeto...

Coragyps Atratus

Jornal O Estado do Maranhão Os bichos pertencem à espécie Coragyps atratus , gênero Coragyps , família Cathartidae , ordem Ciconiiformes , classe Aves , subfilo Vertebrata , filo Chordata , reino Animalia . São os popularíssimos urubus da cabeça seca, muito comuns por estas bandas. Eles são encontrados desde o sul do Canadá até o sul da América do Sul, segundo a Encyclopedia of North America Birds (Enciclopédia dos Pássaros da América do Norte). Preferem habitats abertos, o que inclui lixões em áreas urbanas e rurais, e evitam florestas fechadas. Esses animais estão a ponto a ser mandados pelo Piauí para o Maranhão. Sob a alegação de que os urubus piauienses estariam causando problemas no aeroporto de Teresina, ameaçando a vida das pessoas por causa do risco de colisão com os aviões, a gerência executiva do Ibama nesse Estado, digamos, irmão – embora depois desse episódio desagregador da unidade nacional eu não saiba mais como chamá-lo –, elaborou um plano de expulsão, essa é a palavr...

Sousâdrade em verso e prosa

Jornal O Estado do Maranhão Poesia e prosa reunidas de Sousândrade é o título do belíssimo livro, organizado por Jomar Moraes, presidente da Academia Maranhense de Letras, e por Frederick G. Williams, do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Brigham Young, no Utah, Estados Unidos, a ser lançado na Academia, à rua da Paz, na quarta-feira, dia 31 de março, às 19:30 h. O luxuoso volume de 536 páginas em papel couchê, encadernado no tamanho 22cm x 32cm, tem edição promovida por Jomar com a chancela editorial das Edições AML e o apoio financeiro da Universidade Federal do Maranhão cujo reitor no início da sua feitura era o professor Othon de Carvalho Bastos, bem como da Fundação Sousândrade, dirigida pelas professoras Dinah Gomes, presidente, e Regina Luna, superintendente. Essa publicação é parte de um projeto de mais de trinta anos dos dois pesquisadores, iniciado em 1970, quando Williams veio fazer pesquisas aqui sobre a vida e obra de Sousândrade com o fim de elabora...