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Terror e caos

Jornal O Estado do Maranhão Há diversas causas para a violência das grandes cidades brasileiras, fenômeno fora de controle do poder constituído, como se viu nos ataques de organizações criminosas, comandadas de dentro de penitenciárias, à polícia e população paulistas. Digo descontrolada porque não tenho ilusões a respeito da agressividade inata do ser humano. Essa visão me leva a pensar que, mesmo nas sociedades pacíficas, assim classificadas após o processo civilizatório ter realizado sem impedimentos sua missão, sempre restarão saldos de brutalidade humana a nos fazer refletir sobre a herança que temos em comum com os parentes do reino animal. Não falo dessa espécie de “normalidade violenta”, mas da situação de quase barbárie predominante hoje no Brasil, sem termos sequer a justificativa de ter ela origem no Estado, em nome da criação de um paraíso terrestre, como no comunismo, ou de derivar de movimentos revolucionários com ideologias de retórica libertadora, mas de práticas despó...

Farsa sulamericana

Jornal O Estado do Maranhão A tradição de todas as gerações passadas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Karl Marx Uma vez que Marx saiu de moda, podemos citá-lo sem risco de termos as palavras misturadas com as do esquerdismo infantil ou de mesa de bar. Vamos, então, ao Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte : “Hegel afirma em algum lugar que todos os fatos e personagens de grande importância na história mundial ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farça”. Como o leitor sabe, em dezoito de brumário do ano VIII (9 de novembro de 1799), pelo calendário da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte, aproveitou-se da reação de grupos anti-revolucionários ao restabelecimento do Terror, deu um golpe e criou um consulado que, mais tarde, o levou a fundar o Império, tornando-se Napoleão I. Era um filho da Revolução de 1789 açoitando a contra-revolução. Em 1851, Luís Bonaparte, , sobrinho de Napoleão I, e en...

Opereta sulamericana

Jornal O Estado do Maranhão A diplomacia brasileira é conhecida no mundo todo pela competência, ou foi conhecida, até o momento em que o governo do Brasil decidiu orientar sua política externa por critérios ideológicos e não pelos interesses nacionais, como todos fazem na arena internacional. Um dos resultados, para a surpresa de ninguém, ou, talvez, apenas, dos ideólogos governamentais, foi esse que se vê neste momento: expropriação pelo governo boliviano de investimentos da Petrobrás. E, no entanto, o presidente da Bolívia foi eleito tendo o nosso como animado cabo eleitoral. Um dos argumentos usado com freqüência pelo pessoal de mentalidade estatizante, aqui em nosso país, contra a privatização das empresas-dinossauros estatais, era o de que a venda de seus ativos se dava “a preço de banana”, com perda de parte do patrimônio do povo brasileiro que, é bom notar, havia passado na prática às mãos e pés da burocracia e da tecnocracia. Ora, a Petrobrás é uma estatal brasileira. O patri...

As memórias

Jornal O Estado do Maranhão Há poucas semanas falei da confusão entre realidade e ficção enraizada na política nacional, ao considerar o caso da quebra ilegal de sigilo bancário de um caseiro que acusara o ministro da Fazenda de freqüentar com regularidade certo local suspeito em Brasília. Concluí que o mordomo do ministério era o culpado do crime. No entanto, como a realidade dele era ficcional, achei um culpado alternativo, o porteiro. Sendo este real, onipresente nos prédios públicos de Brasília, tornou-se um tipo ideal, abstrato, ficcional. Se tudo isso parece confuso é porque sempre ocorre essa mistura de realidade com ficção, que provoca imenso fascínio sobre as pessoas. Vejamos algumas idéias de Umberto Eco sobre a memória, que tem muita coisa em comum com a ficção. Ele é especialista em filosofia medieval, professor de semiótica, (a ciência das representações que leva em conta os signos sob todas as sua manifestações), e festejado romancista de O nome da rosa. Em seu livr...

Gato na Caixa

Jornal O Estado do Maranhão Quando Collor governava o Brasil e acusações de desonestidade contra seu governo cresciam dia a dia, o testemunho de um motorista tornou-se decisivo no processo de impeachment que resultaria no afastamento do presidente. Aquele homem simples foi saudado como a encarnação de todas as virtudes do povo. O PT quase o canonizou, deixando de fazê-lo porque o partido não dispunha ainda de um papa, como hoje, embora já fosse uma igreja de confusos ritos, como o de fazer intermináveis assembléias e reuniões a troco de tudo e de nada. Tínhamos naquela hora a impressão de estar diante de um daqueles operários-padrão retratados na arte realista do socialismo soviético, com bandeiras trêmulas ao vento, olhar rútilo em direção ao futuro e inimigos da revolução subjugados aos pés do herói proletário. Imagem cultivada ainda hoje pela fantasia de algumas pessoas politicamente corretas, como as que resolveram nos últimos tempos modificar as letras das cantigas de roda ou de...

Alma em campo

Jornal O Estado do Maranhão O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol Albert Camus A Copa do Mundo estará de volta em três meses. O Brasil é o favorito da competição porque nenhum país se igualou ao nosso, até agora, na capacidade de produzir, com tanta freqüência, tantos jogadores com tantas habilidades. Enquanto, no Mundial, de outras equipes se pergunta “quem é o craque deles?”, escasso craque, do Brasil se pode perguntar “quem não é craque nesse time?”. Nenhum otimismo sobre as nossas chances de mais uma vez ganhar o título é exagerado, com a ressalva de ser justamente a capacidade do futebol de surpreender uma de suas mais apaixonantes características. Aliás, esse é um dos poucos esportes capaz de oferecer aos mais fracos chances efetivas de vitória contra os mais fortes, conferindo-lhe a distinção de ser de fato democrático. Se examinarmos nossa participação em Copas do Mundo, veremos que nem sempre os brasileiros estiveram confiantes como estão agora....

José Aniesse

Jornal O Estado do Maranhão Na Quarta-Feira de Cinzas, fomos, parentes e amigos, levar o corpo de José Aniesse Heickel Sobrinho ao cemitério, onde, ainda perplexos com o inesperado de sua morte, nos despedimos do querido amigo, mas não das lembranças que ficarão em nossas mentes e corações até o momento de cumprirmos também o nosso destino inexorável de retorno ao pó. Para muitos, a vida dele não se encerra com o ritual de despedida. Haverá nova e melhor existência num paraíso e nisso vai um consolo para os que ficam pesarosos, todavia crentes num renascimento. Outros, como eu, gostam de pensar que vivemos enquanto sobreviverem naqueles com quem tivemos alguma coisa em comum, e em nossos filhos e netos, a memória do que fomos na vida. Essa, penso eu, é a imortalidade essencial. Se, de fato, for assim, então ele tem, desde já, essa garantia de não morrer nas lembranças de todos os que o conheceram. Lembranças capazes de me fazer ver no seu féretro, durante o velório, não um homem que ...