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Opereta sulamericana

Jornal O Estado do Maranhão A diplomacia brasileira é conhecida no mundo todo pela competência, ou foi conhecida, até o momento em que o governo do Brasil decidiu orientar sua política externa por critérios ideológicos e não pelos interesses nacionais, como todos fazem na arena internacional. Um dos resultados, para a surpresa de ninguém, ou, talvez, apenas, dos ideólogos governamentais, foi esse que se vê neste momento: expropriação pelo governo boliviano de investimentos da Petrobrás. E, no entanto, o presidente da Bolívia foi eleito tendo o nosso como animado cabo eleitoral. Um dos argumentos usado com freqüência pelo pessoal de mentalidade estatizante, aqui em nosso país, contra a privatização das empresas-dinossauros estatais, era o de que a venda de seus ativos se dava “a preço de banana”, com perda de parte do patrimônio do povo brasileiro que, é bom notar, havia passado na prática às mãos e pés da burocracia e da tecnocracia. Ora, a Petrobrás é uma estatal brasileira. O patri...

As memórias

Jornal O Estado do Maranhão Há poucas semanas falei da confusão entre realidade e ficção enraizada na política nacional, ao considerar o caso da quebra ilegal de sigilo bancário de um caseiro que acusara o ministro da Fazenda de freqüentar com regularidade certo local suspeito em Brasília. Concluí que o mordomo do ministério era o culpado do crime. No entanto, como a realidade dele era ficcional, achei um culpado alternativo, o porteiro. Sendo este real, onipresente nos prédios públicos de Brasília, tornou-se um tipo ideal, abstrato, ficcional. Se tudo isso parece confuso é porque sempre ocorre essa mistura de realidade com ficção, que provoca imenso fascínio sobre as pessoas. Vejamos algumas idéias de Umberto Eco sobre a memória, que tem muita coisa em comum com a ficção. Ele é especialista em filosofia medieval, professor de semiótica, (a ciência das representações que leva em conta os signos sob todas as sua manifestações), e festejado romancista de O nome da rosa. Em seu livr...

Gato na Caixa

Jornal O Estado do Maranhão Quando Collor governava o Brasil e acusações de desonestidade contra seu governo cresciam dia a dia, o testemunho de um motorista tornou-se decisivo no processo de impeachment que resultaria no afastamento do presidente. Aquele homem simples foi saudado como a encarnação de todas as virtudes do povo. O PT quase o canonizou, deixando de fazê-lo porque o partido não dispunha ainda de um papa, como hoje, embora já fosse uma igreja de confusos ritos, como o de fazer intermináveis assembléias e reuniões a troco de tudo e de nada. Tínhamos naquela hora a impressão de estar diante de um daqueles operários-padrão retratados na arte realista do socialismo soviético, com bandeiras trêmulas ao vento, olhar rútilo em direção ao futuro e inimigos da revolução subjugados aos pés do herói proletário. Imagem cultivada ainda hoje pela fantasia de algumas pessoas politicamente corretas, como as que resolveram nos últimos tempos modificar as letras das cantigas de roda ou de...

Alma em campo

Jornal O Estado do Maranhão O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol Albert Camus A Copa do Mundo estará de volta em três meses. O Brasil é o favorito da competição porque nenhum país se igualou ao nosso, até agora, na capacidade de produzir, com tanta freqüência, tantos jogadores com tantas habilidades. Enquanto, no Mundial, de outras equipes se pergunta “quem é o craque deles?”, escasso craque, do Brasil se pode perguntar “quem não é craque nesse time?”. Nenhum otimismo sobre as nossas chances de mais uma vez ganhar o título é exagerado, com a ressalva de ser justamente a capacidade do futebol de surpreender uma de suas mais apaixonantes características. Aliás, esse é um dos poucos esportes capaz de oferecer aos mais fracos chances efetivas de vitória contra os mais fortes, conferindo-lhe a distinção de ser de fato democrático. Se examinarmos nossa participação em Copas do Mundo, veremos que nem sempre os brasileiros estiveram confiantes como estão agora....

José Aniesse

Jornal O Estado do Maranhão Na Quarta-Feira de Cinzas, fomos, parentes e amigos, levar o corpo de José Aniesse Heickel Sobrinho ao cemitério, onde, ainda perplexos com o inesperado de sua morte, nos despedimos do querido amigo, mas não das lembranças que ficarão em nossas mentes e corações até o momento de cumprirmos também o nosso destino inexorável de retorno ao pó. Para muitos, a vida dele não se encerra com o ritual de despedida. Haverá nova e melhor existência num paraíso e nisso vai um consolo para os que ficam pesarosos, todavia crentes num renascimento. Outros, como eu, gostam de pensar que vivemos enquanto sobreviverem naqueles com quem tivemos alguma coisa em comum, e em nossos filhos e netos, a memória do que fomos na vida. Essa, penso eu, é a imortalidade essencial. Se, de fato, for assim, então ele tem, desde já, essa garantia de não morrer nas lembranças de todos os que o conheceram. Lembranças capazes de me fazer ver no seu féretro, durante o velório, não um homem que ...

No fim das terras, uma leitura

Jornal O Estado do Maranhão , Caderno Alternativo O livro de poesia No fim das terras , de Milton Torres, diplomata gaúcho que serve atualmente no Consulado Geral do Brasil em Houston, no Texas, publicado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, em agosto de 2005, é desses que, pela originalidade temática está destinado a marcar a poesia brasileira. A obra tem clara unidade de temas, pela visão do poeta sobre história, economia e sociedade, e cobre período que vai do início da expansão do império marítimo português até a Copacabana de nossos dias, passando pela aventura espanhola no Novo Mundo, pelo sistema colonial português na América, pelo Iluminismo mercantilista de Pombal e pela proibição da tecelagem por Dona Maria num tempo em que o processo manufatureiro da Colônia não podia mais ser contido. Nesse painel, Milton demonstra rara erudição, o que se pode ver também em outro trabalho seu, relativo ao Maranhão, feito a partir do manuscrito Memória político-econômica sobre o Maranhão ...

Inclusão por exclusão

Jornal O Estado do Maranhão A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou projeto que estabelece um sistema de cotas nas universidades federais brasileiras, pelo qual 50% de suas vagas seriam reservadas a alunos do ensino m édio de escolas públicas, incluídos nessa conta os negros e índios, de acordo com o percentual racial estimado pelo IBGE. A recente aprovação deu-se em caráter terminativo, o que significa não ser mais possível levar o assunto à discussão no plenário, antes de seu envio ao Senado, a não ser que um deputado qualquer, com apoio de 56 outros, peça o encaminhamento da matéria a debate amplo na própria Câmara, usando dispositivo do regimento da Casa. O deputado Gastão Viera pretende tomar essa providência, segundo me afirmou há poucos dias. Ele tem esperança de contar com o apoio dos colegas. A proposição deriva de idéia equivocada do governo do PT, dado, nos últimos tempos, a chamar de inclusão social todas as suas tentativas de fazer justiça so...