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Sigilo Quebrado

Jornal O Estado do Maranhão     No capitalismo, que nunca estaciona, mas, ao contrário, evolui constantemente, como afirmou repetidamente Karl Marx, existe um fenômeno chamado por Joseph Shumpeter de “destruição criativa”. Alguns setores e atividades da economia, e os empregos a eles vinculados, são periodicamente destruídos, porém recriados, com outras características, em novas áreas, de tal forma que, no balanço final, a destruição é compensada, mais ou menos na mesma proporção, pela criação. Essa dinâmica, segundo a visão shumpeteriana, surge das inovações tecnológicas introduzidas no sistema econômico, com apoio em estruturas de crédito, por firmas inovadoras, capazes, dessa maneira, de se apropriar, durante algum tempo, de lucros extraordinários. Evidentemente, não é consolo para os trabalhadores demitidos a existência de oportunidades de conseguir novos empregos. De qualquer modo, as chances não estarão ao alcance deles porque, de fato, eles só poderiam obter trabalho ...

Destroços

Jornal O Estado do Maranhão   Machado de Assis, agnóstico assumido, gostava de ler um importante livro do Velho Testamento: “Eu me consolo no desconsolo do Eclesiastes”, disse certa vez referindo-se a suas leituras bíblicas. Sigo seu exemplo. É dessa porção da milenar sabedoria judaica a afirmação de não haver novidades no mundo. “Não há nada que seja novo debaixo do céu e ninguém pode dizer : Eis uma coisa nova. Porque ela já houve nos séculos que passaram antes de nós”. Portanto, não devemos nos surpreender por ter a alta direção do novo PT se revelado tão corrupta e incompetente como se revelou, adotando práticas mais desonestas do que as apontadas nos seus antigos adversários. Mas, como todas as coisas têm o tempo certo, de acordo ainda com o Eclesiastes, havendo o momento de destruir e o de construir, pode ser que estivesse escrito desde sempre ser este o de CPIs. Se não forem por estas erguidos os fundamentos da eliminação da corrupção brasileira bem como da reconstrução mo...

Rasas e Chatas

Jornal O Estado do Maranhão   Caro leitor, analise, por favor, cuidadosamente este texto: “A identidade sexual pode ser usada para os propósitos da hierarquia, segundo Sartre. Sontag, por sua vez, promove o uso do niilismo para modificar a sexualidade e sugere o uso do dematerialismo textual para destruir percepções obsoletas de identidade sexual, numa espécie de paradoxo autofalsificante. Sartre afirma ainda que a narratividade é usada para reforçar o sexismo, mas somente se a premissa do discurso neotextual for válida.” Agora, este: “Podemos ver claramente que não existe nenhuma correspondência biunívoca entre elos lineares significantes ou de arquiescritura, que dependa do autor, e esta catálise maquínica multirreferencial, multidimensional. A simetria de escala, a transversalidade, o caráter pático não-discursivo de sua expansão: todas essas dimensões nos removem da lógica do meio excluído e nos fortalecem em nossa renúncia ao binarismo ontológico [...].” Se ambos parecem des...

Corrupto Honesto

Jornal O Estado do Maranhão     É permanente a ameaça de falta assunto a muitos cronistas ou articulistas, entre os quais me incluo. Tendo um compromisso com prazos inflexíveis, como não poderiam deixar de ser os prazos de jornais, entram em pânico quando não aparecem acontecimentos notáveis sobre o quais possam filosofar barato ou não, demonstrar erudição profunda ou rasa, ou simplesmente ter a ilusão de escrever um bom texto, seja lá sobre o que for, capaz de imortalizá-los perante as gerações vindouras, apesar de sabermos que os próprios imortalizados jamais estarão presentes a suas posteridades (a não ser na forma de desbotadas lembranças), quando poderiam saborear as delícias do reconhecimento de seus talentos, nunca devidamente admitidos pelos contemporâneos, sempre cegos às virtudes de escritor deles. São claras, mesmo assim, as exceções, constituídas pelos fora de série, dos quais temos vários excelentes exemplos aqui no Maranhão. Esses, em geral, são reconhecidos, e...

Uma Forcinha

Jornal O Estado do Maranhão     Quando a humanidade tomou conhecimento da própria existência e percebeu estar no mundo, para o bem ou mal do restante da natureza, sempre ameaçada por sua presença, refletiu sobre a vida e concluiu que tudo tem um fim, ou, pior ainda, pode ter um fim antes do fim, como no caso da chamada potência masculina. Esta pode revelar sua finitude antes de o humano e finito viver propriamente dito terminar, possibilidade alarmante para os homens de nossa espécie e capaz de lhes causar aflição sem fim. A raça humana, ou melhor, a sua metade masculina, carregou, durante milhares de anos de evolução, em alguns aspectos, e de involução, em outros, esse medo genuinamente infinito. Bendita seja a inconsciência dos outros animais, indiferentes a detalhes fisiológicos vulgares como esse. Finalmente, depois dessa verdadeira eternidade de angústia indescritível, de tormento insuportável, de tortura existencial indizível, o comprimido azul do viagra foi inventado,...

Punição e Reforma

Jornal O Estado do Maranhão   Alguém verá como novidade a existência de corrupção, conforme noticiado pela Veja , em organizações estatais como os Correios e o Instituto de Resseguros do Brasil, operacionalizada com base em um arranjo pelo qual o PTB, por seu presidente, deputado Roberto Jéferson, exigia de seus indicados para cargos de direção nesses dois órgãos, e em outros, uma contribuição mensal de R$ 400 mil, ou anual de R$ 4,8 milhões? Alguém fará ares de surpresa ante a revelação posterior, pelo acusado-acusador, mas não muito acuado, deputado, da existência de um “mensalão” de R$ 30 mil mensais, ofertório generoso do PT a diversos deputados do PL e do PP, da mal afamada “base aliada” do governo, mais aliada ainda de seus próprios bolsos, no Congresso Nacional, com o fim de garantir votos para a aprovação de matérias de interesse da administração do PT que, antigamente, batia no peito para demonstrar infinitas qualidades morais e reafirmar pretenso monopólio de todas as m...

Pirataria

Jornal O Estado do Maranhão     Mais de uma vez aqui apontei o que considero uma boa medida da educação, digamos deficiente, de nossa classe média: o tamanho das filas duplas e triplas de automóveis nas portas de escolas particulares, no horário de saída dos alunos, com os previsíveis resultados danosos sobre nossas atividades diárias e nosso direito de circular livremente nas ruas, afinal públicas e não propriedade privada. Essas pessoas, com um nível de renda relativamente alto, tiveram, supõe-se, acesso ao ensino formal. No entanto, tudo indica, a absorção de noções de civilidade porventura a eles transmitidas foi nenhuma. Tudo piorou ultimamente em vez de melhorar, já que os pais, com seus belos veículos sofisticados, símbolos de status social de tão forte contraste com a pobreza em volta, continuam se achando especiais e imunes, portanto, à aplicação da lei, num procedimento típico de sociedades marcadas por grande desigualdade entre os cidadãos. Esse problema, evidente...