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O porto de São Luís

Jornal O Estado do Maranhão Chego ao Papiros do Egito, o sebo de Moema na rua da Cruz, e descubro um número de 1950 da Revista de Geografia e História publicada pela antiga Diretoria Regional de Geografia do IBGE. Em suas páginas encontro o artigo O porto de São Luís de Wilson Soares, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Tomo-lhe emprestado o título. O texto, a história dos projetos elaborados para o porto e das várias tentativas de implantá-lo, está resumido nos parágrafos abaixo. Na Colônia ­– 1799 – d. Diogo de Sousa, governador do Maranhão, propôs a seus superiores em Lisboa algumas medidas de melhoramento do porto, uma delas considerada inadiável, a abertura da barra. Nada foi feito. 1817 – Antônio Joaquim de Oliveira, capitão-de-mar-e-guerra encarregado de analisar suas condições, classificou-o como em “estado de ruína”. Até a Proclamação da Independência a situação não mudou. No Império ­– 1832 – autorizada a construção de dois cais, um da ponta de São Francisc...

Dieta e vaidade

Jornal O Estado do Maranhão Uma das grandes epidemias do mundo moderno é a obesidade, maior até do que a da aids. O problema, inicialmente das sociedades ricas, hoje está em toda a parte, mesmo nos países pobres. Lembro bem de minha chegada em janeiro de 1978 à cidade de South Bend em Indiana nos Estados Unidos, onde eu ficaria quase cinco anos e meio estudando economia, nas áreas de desenvolvimento econômico e organização industrial, e de meu espanto ao ver a grande quantidade de pessoas com excesso de peso naquele grande país excessivo em tudo. Imediatamente associei o fenômeno ao elevado nível de renda e aos maus hábitos alimentares dos americanos. Eu não imaginava que veria o mesmo aqui na minha volta ao Brasil em 1983. Atualmente em muitas regiões da África e em outras áreas de baixa renda média esse fenômeno ocorre de um modo peculiar. A imensa diferença entre os rendimentos dos pobres e dos ricos criou uma situação em que na mesma sociedade convivem pessoas esquálidas por causa...

Leonel

Jornal O Estado do Maranhão A morte, a necessária contrapartida da vida, tem, de um modo geral, o poder de revisar biografias positivamente, mas somente nos momentos imediatamente após ela se impor inexoravelmente. A verdade é esta. Qualquer coisa dita pelos contemporâneos sobre um líder carismático, um homem marcante na vida política e social de uma nação, ou mesmo sobre um qualquer do povo, um obscuro, mas não desimportante, um simples, um falto de influência, um desamparado, é precário, pois as opiniões estarão irremediavelmente contaminadas pelos interesses e paixões da ocasião, amores e ódios, afinidades e aversões, sentimentos bem humanos.  O tempo, somente ele, o mesmo autor da sentença irrevogável sobre os grandes e os pequenos, indiferente a seus supostos poderes e fraquezas, é a única força capaz, quando todo o tumulto de uma época cessa, de fazer o julgamento sereno que, entretanto, estará permanentemente sujeito a revisões, com acréscimos e decréscimos à glória ou à in...

Educação e Desigualdade

Jornal O Estado do Maranhão O IBGE publicou há poucos dias sua mais recente Pesquisa Mensal de Emprego, com as informações sobre a força de trabalho brasileira classificadas por raça. Será, a sociedade dos nossos desejos para o Brasil, essa dos números divulgados nessa pesquisa? Vejamos. Entre as pessoas ocupadas, a renda média mensal dos brancos é mais de duas vezes a renda dos negros ou pardos que apresentam, ainda, uma taxa de desemprego de 15,3%, enquanto a dos brancos é de 11,1%. Esta é uma taxa alta, mas, de qualquer maneira, bem mais baixa, em termos relativos, do que a outra. As coisas pioram quando olhamos homens e mulheres separadamente. Estas, no caso de serem negras, têm um rendimento médio por hora de R$ 2,78.  Os homens brancos, em contraste, recebem R$ 7,16, as mulheres brancas R$ 5,69 e os homens negros R$ 3,45. Logo, os homens brancos estão no alto da hierarquia econômica e as mulheres negras lá embaixo. Quem nasce homem e branco no Brasil tem melhor chance de se ...

Passeios

Jornal O Estado do Maranhão Os cachorros passeiam bem cedo nas manhãs do bairro do Olho d’Água. São de raças e tipos diversos, mas todos balançam a cauda da mesma maneira, tranqüilamente satisfeitos, quase sorridentes, indiferentes ao sentido da vida ou à falta de sentido. Há os grandes, de passos pesados. Aparentam fazer um buraco no chão a cada vez que arreiam sem pressa suas imensas patas. Os pequenos, de tão leves no andar, parecem não pisar em nada ou, porventura, lembram o deslizar em skates dos gatos de óculos escuros dos filmes americanos. Avistam-se, também, os gordos, com os lentos movimentos laterais das pesadas ancas, e os magros, que as fazem subir e descer leves com pequenos saltos. Para quem passeia por uma rua perpendicular à do desfile dos cachorros compridos, eles se mostram aos poucos nos cruzamentos, dando a impressão de sair de uma tela de cinema, tal qual o desbravador de Rosa Púrpura do Cairo. Os curtos são tão curtos que poderiam andar, sem perder o equilíbri...

A China dos negócios

Jornal O Estado do Maranhão É antiga a expressão. Não faz muitos anos, as pessoas diziam, ao se referir a uma transação comercial em que tivessem obtido lucros fáceis: Fiz um “negócio da China”. Naturalmente, isso se aplica a situações de completo desequilíbrio no poder de barganha entre as partes, com vantagens para um dos negociantes apenas, em prejuízo dos outros. Com história milenar, a China teve seus primeiros contatos com os povos ocidentais ­ durante a dinastia Ming (1368-1644). Na época desses governantes, o império chegou à sua maior expansão, alcançando o domínio da Coréia e da Mongólia. Um período de declínio seguiu-se, com origem no esgotamento de recursos nacionais, como resultado da luta com algumas potências econômicas e militares da Europa, com os japoneses e com os povos da Manchúria. Uma nova dinastia (1644-1912), de conquistadores manchus, se estabeleceu. Após uma breve fase de paz o império entrou em conflito com os ingleses, principalmente, mas também com outros ...

Namoro nas prateleiras

Jornal O Estado do Maranhão Eu sou um freqüentador assíduo de livrarias. Muitas vezes, vou lá unicamente para namorar. Os livros, bem entendido, as mais recentes publicações. Eu chego, pego uma do meu agrado, vejo se é macia ou áspera, gorda ou magra, sinto a lombada, sua coluna vertebral, com a ponta dos dedos, dou um leve sopro na orelha, avalio a textura da pele, quero dizer, do papel, estimo, da cabeça aos pés, o tamanho, com meu olhar de profundo conhecedor, considero a palidez ou o rubor das caras, perdão, das cores e estimo furtivamente a adequação das formas, a simetria da composição, a suavidade das linhas e a possibilidade de ocorrência de defeitos à primeira vista ocultos, risco sempre presente em nossas escolhas, como me garantiu recentemente um amigo que acabara de se divorciar depois de passar anos acusando a ex-mulher de “falsidade ideológico-matrimonial”. Só então, (ó mundo materialista, governado pelo vil metal ou pelo ainda mais vil plástico do cartão de crédito!) me...