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Testes

Jornal O Estado do Maranhão Se você, caro leitor, brincou todos os dias do carnaval, chegou inteiro à Quarta-Feira de Cinzas, não teve de tomar nenhum chazinho para se recuperar dos excessos e pôde trabalhar sem problemas, então parabéns. Você foi aprovado no teste do folião. Ele mede seu grau de entusiasmo carnavalesco e mostra sua integração com a cultura brasileira. Corra e comente o resultado com seus amigos. Engana-se quem pensa que vivemos na era da informática. O nosso tempo é o do teste. Para tudo existe um. Tem o do bom marido, o do namorado romântico, o do cavalheiro perfeito, o do atleta eficiente, o dos pais amorosos, o do filho carinhoso, o do chefe querido, o do empregado responsável, o do professor impecável, o da idade real (um para os homens e outro, diferente, para as mulheres, o da idade irreal), o do político sincero, o do empresário moderno, o do jogador disciplinado e dezenas de outros. Abra qualquer revista, popular ou não. Você vai encontrar um deles. Tem para t...

Carnaval

Jornal O Estado do Maranhão No meu tempo de criança, o circuito de carnaval era feito em uma linha reta. Ela começava na praça Gonçalves Dias, quase na margem esquerda do rio Anil, e terminava na praça do Cemitério, perto da margem direita do Bacanga. Incluía, assim, a rua Rio Branco e a do Passeio, bem como o trecho entre as duas, numa das laterais da praça do Panteon. Íamos de mudança para um segmento dessa reta, a família inteira, meu pais e a penca de crianças, durante a temporada carnavalesca. Ficávamos hospedados na casa de minha avó, Josefina Moreira, na rua do Passeio, em frente de uma construção que nunca acabava. Ou assim parecia a mim. Havia sido projetada para ser o Hospital da Cruz Vermelha. Acabou servindo de sede ao atual Socorrão I. A cada ano, eu chegava com a esperança de encontrar a obra terminada. Imaginava o prédio pronto e o movimento de pessoas entrando e saindo apressadas. Umas procurando lenitivo para os males do corpo, outras o dando. O pronto-socorro da cida...

Brasília, carnaval e futebol

Jornal O Estado do Maranhão Houve um tempo em que todo mundo dizia que São Paulo era o túmulo do samba, como se nascessem sambistas somente no Rio de Janeiro. Sobre o futebol, a conversa ia além-fronteiras. Jogadores habilidosos, bons de bola, só os brasileiros. Os estrangeiros eram uns desajeitados, grossos de cintura dura. Como dizia minha mãe em seus arroubos patrióticos, eles eram selvagens, covardes e viviam dando pontapés nos nossos heróis da bola, modelos perfeitos do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. Mulher bonita, então, nem falar. A prova da beleza da mulher do nosso país era a garota de Ipanema. As mulheres dos outros – dos outros países, bem entendido – eram magricelas, reles branquelas sem graça e também grossas de cintura, literalmente. Parecia ser crença geral a superioridade genético do nosso povo, por insondáveis mistérios da natureza, justificando o ingênuo ufanismo nacional de então. Hoje todos reconhecem a excelência do samba de São Paulo. Sabe-se, ainda...

Hora de ação

Jornal O Estado do Maranhão Uma mulher, pacífica dona de casa da classe média da cidade de Campinas, em São Paulo, é seqüestrada. Dias depois, é levada de volta até a porta de sua residência e solta. Solta? É o que ela deve ter pensado. Mal deu alguns passos, foi fuzilada pelas costas. O piloto de um helicóptero é obrigado a pousar no pátio de uma penitenciária de segurança máxima. Máxima? Mínima. Durante a ação, um traficante de drogas foi libertado pelos comparsas sem o disparo de um tiro sequer pela polícia. O prefeito de Campinas, São Paulo, do PT, havia sido assassinado anteriormente. Para vergonha de nosso país, um outro prefeito, também do PT, de Santo André, na Grande São Paulo, foi seqüestrado, torturado e trucidado na semana passada. A violência, e particularmente o seqüestro, tornou-se, nos últimos anos, comum no Brasil. Já não provoca revolta, a não ser nos parentes das vítimas. Uma repórter, ao comentar o caso de Santo André, disse que a polícia suspeitava de um “seqüestr...

Pesadelo

Jornal O Estado do Maranhão Não tem sido raro eu ter pesadelos, ultimamente. Eles não têm dia nem hora para me atormentar, pois aparecem quando bem querem. Às vezes, passo horas sem poder dormir, por medo do sofrimento. Mas, quando consigo dormir, acordo sobressaltado. É a tortura de ficar acordado, estando morto de sono, ou de ter de enfrentar o martírio do pesadelo, querendo ficar acordado. Que fazer? Tento ficar acordado, mas durmo. Tento dormir, mas acordo. Não durmo nem fico acordado. Durma-se com um barulho desses! Ou melhor, não se durma mesmo com o silêncio da madrugada! Por favor, não chamem nenhum analista, desses de avaliar a cuca das pessoas. Nem o próprio Freud resolveria meu problema. Ele é insolúvel. A fonte dos meus males, ele não a reconheceria, de tão moderna. Imagino o sofrimento de milhões de pessoas pelo mundo afora, que padecem do mesmo tormento. Tudo tenho feito a fim de evitar o estresse, eliminar o problema, ter paz. Sem resultado positivo nenhum. Chás quase nã...

Razão

Jornal O Estado do Maranhão Se pudermos chamar algo de inato no ser humano, certamente será isso a propensão para a crença. Ela é tão poderosa em nós, sendo única no reino animal, que Edward O. Wilson, no seu Sobre a natureza humana , chega a dizer que “a predisposição para a crença religiosa é a mais complexa e poderosa força na mente humana e com toda probabilidade uma parte inarredável da sua natureza. [...] É um dos universais do comportamento social [...]”. Ocorre-me esse pensamento quando vejo os crescentes irracionalismo e obscurantismo na sociedade de nossos dias, no que respeita à proliferação de crenças exóticas. Sobre esse fenômeno, fala-nos o psicólogo norte-americano Michael Shermer, em recente entrevista à revista Veja . As formas mais próximas do nosso cotidiano são as relativas a magos, seres extraterrestres, duendes, bruxas, pirâmides, biorritmos, cristais e outras. Tenho escrito alguns artigos com a intenção de chamar a atenção dos leitores, sem desrespeito pela crenç...

Argentina

Jornal O Estado do Maranhão Duas fundações teve Buenos Aires, para não restar dúvidas sobre sua vontade de viver. Duas vidas que são mais do que sete fôlegos. São sete vidas. Mais ainda, vidas dentro da vida. Como no labirinto de que nos fala o poeta portenho, o maior da língua de Cervantes, Calderón, Góngora, Quevedo, Lope de Vega. A primeira fundação, realizou-a D. Pedro de Mendoza, de Granada, em 1536. Puerto de Nuestra Señora Santa María del Buen Aire. Depois Buenos Aires. Bons Ares. Os conquistadores expulsos pelos índios e pela falta de comida. Mas, é ir lá e ver os bons ares dos vários rios, o Paraná, o Uruguai e o Salado, que formam um só, o da Prata, chegando todos, quase juntos, ao estuário. Bons também são os ares das ruas cheias de livrarias, de bioys casares e de borges, de tangos, de gardéis, de futebol, de maradonas, de elegâncias ostensivas, não discretas como as do Caetano de inspiração paulistana. Azul e branco em tudo. A segunda fundação foi por Juan Garay, em 1580, ...