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Homens e dinossauros

Jornal O Estado do Maranhão Acaba de ser anunciada a descoberta, no Quênia, de um crânio fossilizado de um hominídeo de 3,5 milhões de anos. Ele seria de um gênero desconhecido e mais antigo, mesmo, do que o Australopithecus , nosso ancestral de 3,2 milhões de anos que era considerado o mais remoto. Os dois gêneros teriam convivido durante alguns milhares ou milhões de anos, levantando dúvidas sobre qual deveria ser considerado o verdadeiro pai, ou avô, da espécie humana. Não querem os cientistas, naturalmente, contestar a hipótese criacionista do surgimento da vida na Terra, em sete dias, por meio de um sopro divino, como diz a tradição. Essa é matéria das religiões, não da ciência. Questão de fé que, ao remover montanhas, pretende afastar, junto com elas, as dúvidas, insinuadas pela ação sorrateira da serpente do Paraíso, quanto à forma como os seres humanos e os outros apareceram neste planeta perdido no meio de milhões de outros. O certo é que a descoberta recente gerou uma grande ...

Maranhenses em machado

Jornal O Estado do Maranhão Machado de Assis tinha genuína admiração pelo Maranhão. Durante sua longa carreira de cronista em diversos jornais do Rio de Janeiro, fez ele, muitas vezes, referências elogiosas a maranhenses: Joaquim Serra, João Lisboa, Gonçalves Dias, Sotero dos Reis, Odorico Mendes, Henriques Leal, Gomes de Sousa, Gentil Braga, Sabas da Costa, Artur Azevedo, Teófilo Dias, Raimundo Correia, Coelho Neto. Para bem se avaliar a proximidade de suas relações com os escritores do nosso Estado, é suficiente dizer que por ocasião de sua morte estavam a seu lado Coelho Neto, Raimundo Correia e Graça Aranha, bem como os não maranhenses Mário de Alencar, José Veríssimo, Rodrigo Otávio e Euclides da Cunha. Em crônica de 5 de novembro1893, na Gazeta de Notícias , o escritor carioca mostra irritação com uma expressão que se tinha tornado um modismo por influência da comédia V erso e reverso de José de Alencar. Um personagem, mal entrava em cena, disparava a pergunta: Que há de novo? D...

Coco mata

Jornal O Estado do Maranhão Hoje, já não se sabe mais o que fazer para ter uma vida dita saudável. Durante anos, ouviu-se dizer que o uso da margarina, em substituição à manteiga, é que é o certo para evitar o mau colesterol e outros problemas. Um estudioso qualquer, que levou anos pesquisando, enquanto a gente enchia o pão e a frigideira de margarina, está dizendo que não faz diferença. Um dia pode, outro dia não pode. Um dia deve, outro não. Desse jeito acaba-se morrendo é de susto, no mais perfeito estado de saúde. Houve um tempo em que correr, “fazer cooper”, era o máximo. Quem não fizesse ia, já, já, ter um ataque de coração, talvez um derrame cerebral, hoje apelidado de AVC, Acidente Vascular Cerebral. Ou uma doença ia atacar. Qualquer uma. Depois de muitas vértebras deslocadas, tendinites e outras mazelas, veio a novidade: andar é muito melhor do que correr. Nada de forçar a coluna, prejudicar o joelho, torcer o tornozelo etc. Nessa época, um amigo meu ia à praia, diariamente, “...

Provisória ou permanente?

Jornal O Estado do Maranhão Quem tem, ou já teve, conta bancária sabe. O governo federal, há anos, vinha ficando, primeiro com 0,20%, depois com 0,30% de qualquer valor movimentado nela, por imposição da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira — CPMF, o “imposto do cheque”. Não mais. A percentagem irá subir para 0,38% no dia 18. Pelo que se ouve, a intenção do governo não é, tão-somente, de aumentar a alíquota. É, também, de tornar permanente o que era para ser provisório. Como, aliás, todo mundo dizia. Menos, é claro, as autoridades fiscais. A desculpa para a criação do tributo foi a necessidade de obtenção de recursos para projetos sociais. Para o aumento mais recente foi outra, embora semelhante: a geração de novos recursos para o Fundo de Combate à Pobreza. No entanto, a arrecadação da CPMF, também como previsto, tem sido, sistematicamente, desviada para outras finalidades, ao arbítrio das necessidades emergenciais de caixa do Executivo federal. A facilidade de coleta...

Um homem incomum

Jornal O Estado do Maranhão Quando o escritor maranhense Joaquim Serra morreu, em 1888, seu grande amigo Machado de Assis escreveu, na Gazeta de Notícias , do Rio de Janeiro: “Quando há dias fui enterrar o meu querido Serra, vi que naquele féretro ia também uma parte de minha juventude”. Vi a mesma coisa, quando, no sábado de Carnaval, fomos levar o corpo do meu tio Luís de Melo Raposo Filho, Luisinho, ao cemitério do Vinhais. No féretro dele ia um pedaço de minha juventude, mas dela ficavam recordações que, sem a convivência com ele, seriam menos felizes. As lembranças mais antigas que tenho dele me ficaram de sua presença na casa da rua Cândido Ribeiro, entre a rua Grande e a de Santana, onde ele morava com sua mãe, Marcelina, minha avó, e dois de seus irmãos, portanto meus tios também, Saul e Haroldo Raposo. Eu ia lá diariamente, durante o ano escolar, no turno da tarde. Saltava do ônibus na rua do Sol. Vinha andando, seguro pela mão de meu pai que, para mim, tinha passos de gigante...

Santa de casa

Jornal O Estado do Maranhão O Carnaval está conosco novamente. Embora de origem portuguesa, de mistura com elementos africanos do samba, que lhe serve de complemento musical e suporte, nada mais brasileiro do que ele, junto com o futebol. Afirma-se, com freqüência, que suas festividades, permitindo a manifestação de desejos e comportamentos reprimidos fora da época carnavalesca, fazem bem à alma. Um tipo de divã psicanalítico coletivo para libertar o inconsciente nacional de seus traumas. Mas ele pode contribuir não apenas para alívio do espírito. O Carnaval maranhense, este ano, poderá ajudar na medicação do corpo, por ele mesmo tão maltratado nos três dias de festas. É que de uns tempos para cá, as Escolas de Samba resolveram homenagear figuras ilustres da vida brasileira, em todos os campos. Poetas, escritores, compositores, atores, artistas plásticos, políticos, cientistas, jogadores de futebol. Aqui em São Luís, seguindo a tendência, a Favela do Samba faz, no desfile oficial das E...

Almas vivas

Jornal O Estado do Maranhão Leio nas folhas, vejo na televisão que, por falta de pagamento, vão despejar os mortos dos cemitérios do Gavião, São Cristóvão, Maracanã, Vila Maranhão, Tibiri, Santa Bárbara, Anjo da Guarda e São Raimundo. “A medida, apesar de funesta, é amparada por leis federais e municipais”, diz O Estado do Maranhão . Deve ter mesmo o tal amparo legal. É um pressuposto do contrato de terceirização da administração dos cemitérios que a prefeitura de São Luís assinou com a empresa Centurion. De qualquer modo, quando se pensava que os mortos estivessem na paz eterna, eis que resolvem perturbá-los. Centurion é a denominação inglesa de centurião, comandante de uma centúria que, como sugerido pelo nome, era uma centena de soldados que formavam uma companhia nas tropas romanas. Haverá aí uma insinuação de que a ameaça de despejo é pra valer, podendo a empresa, se necessário, convocar o poder das armas para fazer cumprir a “funesta” lei? Como se sabe, as irrevogáveis leis da na...