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Provisória ou permanente?

Jornal O Estado do Maranhão Quem tem, ou já teve, conta bancária sabe. O governo federal, há anos, vinha ficando, primeiro com 0,20%, depois com 0,30% de qualquer valor movimentado nela, por imposição da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira — CPMF, o “imposto do cheque”. Não mais. A percentagem irá subir para 0,38% no dia 18. Pelo que se ouve, a intenção do governo não é, tão-somente, de aumentar a alíquota. É, também, de tornar permanente o que era para ser provisório. Como, aliás, todo mundo dizia. Menos, é claro, as autoridades fiscais. A desculpa para a criação do tributo foi a necessidade de obtenção de recursos para projetos sociais. Para o aumento mais recente foi outra, embora semelhante: a geração de novos recursos para o Fundo de Combate à Pobreza. No entanto, a arrecadação da CPMF, também como previsto, tem sido, sistematicamente, desviada para outras finalidades, ao arbítrio das necessidades emergenciais de caixa do Executivo federal. A facilidade de coleta...

Um homem incomum

Jornal O Estado do Maranhão Quando o escritor maranhense Joaquim Serra morreu, em 1888, seu grande amigo Machado de Assis escreveu, na Gazeta de Notícias , do Rio de Janeiro: “Quando há dias fui enterrar o meu querido Serra, vi que naquele féretro ia também uma parte de minha juventude”. Vi a mesma coisa, quando, no sábado de Carnaval, fomos levar o corpo do meu tio Luís de Melo Raposo Filho, Luisinho, ao cemitério do Vinhais. No féretro dele ia um pedaço de minha juventude, mas dela ficavam recordações que, sem a convivência com ele, seriam menos felizes. As lembranças mais antigas que tenho dele me ficaram de sua presença na casa da rua Cândido Ribeiro, entre a rua Grande e a de Santana, onde ele morava com sua mãe, Marcelina, minha avó, e dois de seus irmãos, portanto meus tios também, Saul e Haroldo Raposo. Eu ia lá diariamente, durante o ano escolar, no turno da tarde. Saltava do ônibus na rua do Sol. Vinha andando, seguro pela mão de meu pai que, para mim, tinha passos de gigante...

Santa de casa

Jornal O Estado do Maranhão O Carnaval está conosco novamente. Embora de origem portuguesa, de mistura com elementos africanos do samba, que lhe serve de complemento musical e suporte, nada mais brasileiro do que ele, junto com o futebol. Afirma-se, com freqüência, que suas festividades, permitindo a manifestação de desejos e comportamentos reprimidos fora da época carnavalesca, fazem bem à alma. Um tipo de divã psicanalítico coletivo para libertar o inconsciente nacional de seus traumas. Mas ele pode contribuir não apenas para alívio do espírito. O Carnaval maranhense, este ano, poderá ajudar na medicação do corpo, por ele mesmo tão maltratado nos três dias de festas. É que de uns tempos para cá, as Escolas de Samba resolveram homenagear figuras ilustres da vida brasileira, em todos os campos. Poetas, escritores, compositores, atores, artistas plásticos, políticos, cientistas, jogadores de futebol. Aqui em São Luís, seguindo a tendência, a Favela do Samba faz, no desfile oficial das E...

Almas vivas

Jornal O Estado do Maranhão Leio nas folhas, vejo na televisão que, por falta de pagamento, vão despejar os mortos dos cemitérios do Gavião, São Cristóvão, Maracanã, Vila Maranhão, Tibiri, Santa Bárbara, Anjo da Guarda e São Raimundo. “A medida, apesar de funesta, é amparada por leis federais e municipais”, diz O Estado do Maranhão . Deve ter mesmo o tal amparo legal. É um pressuposto do contrato de terceirização da administração dos cemitérios que a prefeitura de São Luís assinou com a empresa Centurion. De qualquer modo, quando se pensava que os mortos estivessem na paz eterna, eis que resolvem perturbá-los. Centurion é a denominação inglesa de centurião, comandante de uma centúria que, como sugerido pelo nome, era uma centena de soldados que formavam uma companhia nas tropas romanas. Haverá aí uma insinuação de que a ameaça de despejo é pra valer, podendo a empresa, se necessário, convocar o poder das armas para fazer cumprir a “funesta” lei? Como se sabe, as irrevogáveis leis da na...

Porta da escola

Jornal O Estado do Maranhão As aulas voltaram. Com elas, chegou, como em todo começo de ano escolar, a esperança na força libertadora da educação, com seu poder intangível, porém enorme, de transformação. Não há exemplos de sociedades que tenham se libertado da miséria e da fome, tão degradantes para o homem, sem educar seu povo. Dizer isso me ocorreu por causa da afirmativa de um amigo, de que a educação de um povo pode ser medida pela forma de conduzir automóveis. Não sei se isso é verdade. Se for, há motivos de preocupação com nossa cidade. Se fôssemos julgar pela postura de alguns ao volante, seria uma terra de gente mal educada. Ironicamente, o amigo chama a atenção para a falta de educação, exibida com orgulho. Onde? Nas portas das escolas, lugar de educação. Pior, ainda, diz ele. O mau exemplo é dado pelos pais dos educandos. Estes, guiados por aqueles, acabarão igualmente mal educados. O que se vê é de lamentar. Na ânsia de apanhar seus amados filhos, depois das intermináve...

Globalização

Jornal O Estado do Maranhão Descobriu-se, finalmente, a causa de todos os males e bens do mundo. A gasolina subiu, o real caiu? Deu terremoto na Índia, maremoto no Japão, tempestade na Austrália? O deputado enfartou, o senador gripou, a saúde piorou? O amor acabou, o marido se mandou, a mulher nem lamentou? A seca arrasa o Nordeste, as enchentes o Sudeste? A fome mata na África, as guerras em todo lugar?  É a globalização. A recessão melhorou, a economia cresceu, o emprego aumentou? A inflação encolheu, o preço agora tá certo, deu pra comprar a TV? Fez muito sol no domingo, o futebol foi legal, deu pra jogar no bingo? É a globalização. Fenômeno já bastante antigo, ela parece responsável por tudo no mundo de hoje. No Fórum Econômico Mundial realizado na semana passada em Davos, na Suíça, reuniram-se homens sérios e solenes. Eram chefes de Estado, economistas famosos, financistas, empresários, gente de peso econômico, para longas discussões sobre o futuro da economia mundial. Foi lá ...

Uma carta

Jornal O Estado do Maranhão Tenho uma carta diante de mim e de minha emoção que não é pouca. É a respeito do artigo que escrevi, há algumas semanas, sobre a travessia que se fazia em pequenos barcos, aqui em São Luís, da Beiramar para a Ponta da Areia, antes da construção da ponte do São Francisco. Com a desculpa de avivar minha fraca memória, acerca das marcas e modelos dos carros da época, o remetente se põe a fazer elogios, com sinceridade e justiça, tenho certeza, a meu pai, Carlos Moreira, de quem falei. Dizem que santo de casa não faz milagres. É verdade, menos no caso dos filhos, para quem os pais serão sempre heróis. Foi isso que a carta me fez sentir e lembrar primeiramente. Mas não foi só isso. A referência às “viagens” a São José de Ribamar, “com direito a despedida”, levou-me de volta ao momento em que, de certo trecho da estrada, num ponto alto, se avistava, como ainda se avista, a cidade do santo lá longe. Era nesse momento que o céu, uma imensa redoma azul e branca, se a...