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Questão de fé

Jornal O Estado do Maranhão   Ofereço ao preço de, apenas, dez minutos de leitura e paciência, corrente que recebi de leitor anônimo. Ela é autêntica e não transitou nessa internet cheia de vírus e dos tais programas-espiões que infernizam a vida dos usuários. Para chegar a milhares de lares, passou tão-só pelo correio tradicional e pela infinita credulidade humana. Eis a peça, como a recebi na passagem do Ano Novo. “O original desta corrente está num cofre-forte do PT em São Paulo, mas suas cópias rodam o mundo inteiro. Ao enviá-la você vai ter muita sorte. Não mande dinheiro, principalmente se for em real. A felicidade não tem preço, a não ser em euro. Envie você mesmo 1.321 cópias pelo correio pra pessoas azaradas. Não ignore esta carta, ela deverá ser enviada em no máximo 23 horas e14 minutos. Isto não é brincadeira nem superstição. É uma corrente enérgica ou energética, não sei bem, tem alguma coisa com energia positiva. Saddam Hussein recebeu, não deu importância e ainda ...

A outra metade

Jornal O Estado do Maranhão Nísia Floresta Brasileira Augusta era o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, nordestina do Rio Grande do Norte. Ela viveu no século XIX e foi, no Brasil, pioneira na defesa dos direitos das mulheres, numa época de completo domínio dos pais, maridos e, até, irmãos sobre elas, que tinham alguns direitos básicos negados: os de se educar, votar e trabalhar fora do lar. Em sua maioria analfabetas, eram com facilidade controladas. A primeira obrigação delas era o de submissão à vontade masculina, imposição vendida como lei da natureza. Nísia escreveu vários livros em português, francês e italiano, entre eles Direitos das mulheres e injustiça dos homens , de 1832, o mais conhecido, em que rejeita a superioridade masculina. Ela defendia a idéia de ser a educação feminina o melhor caminho de tornar as mulheres boas mães e esposas. Essa visão, hoje com ares de coisa retrógrada, representou no seu tempo um grande avanço, pois valorizava o papel social delas, que at...

Papagaios, Patos, Gatos E Perus

Jornal O Estado do Maranhão   Seu Antônio, viúvo, aposentado solitário, morador de Brasília, tinha um papagaio havia mais de quarenta anos, sua única companhia depois da morte da mulher. (Não sei se o animal tem vida tão longa, confio na informação da TV.). Tinha também um vizinho inimigo de papagaios, à semelhança daquele outro de Timon, no Maranhão, que não gostava de cachorros, em especial de Bingo, que o mordeu, despertando-lhe a ira, disso resultando denúncia à polícia e prisão do cachorro, humano também (como o papagaio), na divinatória classificação do ex-ministro do Trabalho, Rogério Magri, pois, como se vê hoje, bicho virou gente, a julgar por clínicas de estética, hotéis, academias de ginásticas e salões de beleza que antes serviam apenas aos chamados seres racionais, mas agora prestam serviços aos clientes de quatro patas, que fazem gato e sapato de seus pretensos senhores. O caso do viúvo, porém, é outro. Ele queria apenas companhia confiável, alguém para lhe aliviar a...

Ratos e Homens

Jornal O Estado do Maranhão Pesquisas científicas que procuram maneiras de utilizar células-tronco em seres humanos provocam intensos debates, pelas dúvidas que suscitam no campo da ética. Ao contrário das demais células, elas são capazes de se diferenciar, constituir diferentes tecidos em nosso organismo e de se auto-replicar. No entanto, tão-só as embrionárias, assim chamadas por serem encontradas nos embriões, podem se diferenciar ou se transformar em qualquer um dos 216 tecidos do corpo humano. O restante das células-tronco podem, em um caso, modificar-se em quase todos os tecidos, menos na placenta e anexos embrionários; em outro, se diferenciam em poucos; no último caso, em apenas um tecido. Elas poderão ser úteis, para citar somente dois casos de aplicação promissora, na cura da diabetes e na regeneração de lesões graves. (Não, eu não me tornei de repente um especialista no assunto, só usei a internet para obter essas informações no sítio do jornal O Estado de S.Paulo , na seçã...

Duas Mulheres

Jornal O Estado do Maranhão   Aquela mulher que vemos ali acaba de se levantar. Irá silenciosa preparar o café da manhã para a família pobre de um bairro pobre, na manhã que mal se inicia, depois de tomar banho de água fria, estarei ficando velha, perguntará a si mesma no banheiro, e pensará no marido, depois chamará os filhos para a escola, o mesmo marido para o trabalho, a todos para a vida diária corriqueira, sem novidades, exceto aquela que todos saberão no fim do dia, de que ela só terá consciência no último instante e apenas por um brevíssimo momento ou quem sabe não terá, não compreenderá a origem da sensação estranha de calor e leve dor em todo o seu frágil corpo. Arrumará as roupas de todos, lavadas na noite anterior, depois que chegou tarde do trabalho, fará recomendações, não cheguem tarde, cuidado na rua, lavará a louça e deixará a mesa pronta para o almoço pois àquela hora ainda não estará de volta. Agora chama a filha, hoje tu vais comigo, é sábado, tem serviço extra...

Brasileirão

Jornal O Estado do Maranhão O campeonato brasileiro de futebol, o Brasileirão, chega ao fim com sucesso hoje. Seria melhor não fosse pelo juiz que manipulou algumas partidas, anuladas de imediato pelo tribunal de justiça desportiva. A rapidez da ação evitou as usuais polêmicas, de resultados imprevistos sobre o andamento da competição. O acerto da forma de disputa, a mesma adotada na Europa, levou a que as duas equipes mais eficientes neste ano, Corinthians e Internacional, de Porto Alegre, sejam as únicas com chances de alcançar o título, como, aliás, acontece quando o merecimento prevalece. A razão do êxito do Brasileirão está justamente aí, num sistema de pontos corridos, com rebaixamento e jogos de todos contra todos em dois turnos. Não é o caso da Copa do Brasil, torneio cujo objetivo é dar oportunidade de vencê-lo a times sem tradição nacional, com um pouco de sorte em pequeno número de partidas eliminatórias. Os méritos dessa boa organização são da CBF. Quem não se lembra da re...

Rotina

Jornal O Estado do Maranhão   Num domingo de verão, fim da tarde, quando milhares de pessoas voltavam a Paris em seus automóveis, um engarrafamento paralisou na auto-estrada o trânsito em direção à cidade. Depois de algum tempo os motoristas se convenceram de não ser o problema temporário, mas de longa duração. Aos poucos, sem meios para escapar, depressa estruturaram uma pequena comunidade. Logo, porém, surgiram as mesmas relações humanas desumanizadas, se assim posso dizer, da sociedade maior de onde vinham, marca distintiva da vida nos nossos dias. A primeira necessidade era estabelecer regras garantidoras da sobrevivência física de todos. Como assegurar o abastecimento de água e comida? Formaram-se grupos, surgiram chefes, conflitos, alianças. Muitos conversavam, falavam sobre suas vidas, desabafavam com gente nunca vistas em outra ocasião, pensavam nas obrigações que não poderiam cumprir, liam, sonhavam, amavam, odiavam. Criou-se um almoxarifado geral, organizou-se a distribu...