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Papagaios, Patos, Gatos E Perus

Jornal O Estado do Maranhão   Seu Antônio, viúvo, aposentado solitário, morador de Brasília, tinha um papagaio havia mais de quarenta anos, sua única companhia depois da morte da mulher. (Não sei se o animal tem vida tão longa, confio na informação da TV.). Tinha também um vizinho inimigo de papagaios, à semelhança daquele outro de Timon, no Maranhão, que não gostava de cachorros, em especial de Bingo, que o mordeu, despertando-lhe a ira, disso resultando denúncia à polícia e prisão do cachorro, humano também (como o papagaio), na divinatória classificação do ex-ministro do Trabalho, Rogério Magri, pois, como se vê hoje, bicho virou gente, a julgar por clínicas de estética, hotéis, academias de ginásticas e salões de beleza que antes serviam apenas aos chamados seres racionais, mas agora prestam serviços aos clientes de quatro patas, que fazem gato e sapato de seus pretensos senhores. O caso do viúvo, porém, é outro. Ele queria apenas companhia confiável, alguém para lhe aliviar a...

Ratos e Homens

Jornal O Estado do Maranhão Pesquisas científicas que procuram maneiras de utilizar células-tronco em seres humanos provocam intensos debates, pelas dúvidas que suscitam no campo da ética. Ao contrário das demais células, elas são capazes de se diferenciar, constituir diferentes tecidos em nosso organismo e de se auto-replicar. No entanto, tão-só as embrionárias, assim chamadas por serem encontradas nos embriões, podem se diferenciar ou se transformar em qualquer um dos 216 tecidos do corpo humano. O restante das células-tronco podem, em um caso, modificar-se em quase todos os tecidos, menos na placenta e anexos embrionários; em outro, se diferenciam em poucos; no último caso, em apenas um tecido. Elas poderão ser úteis, para citar somente dois casos de aplicação promissora, na cura da diabetes e na regeneração de lesões graves. (Não, eu não me tornei de repente um especialista no assunto, só usei a internet para obter essas informações no sítio do jornal O Estado de S.Paulo , na seçã...

Duas Mulheres

Jornal O Estado do Maranhão   Aquela mulher que vemos ali acaba de se levantar. Irá silenciosa preparar o café da manhã para a família pobre de um bairro pobre, na manhã que mal se inicia, depois de tomar banho de água fria, estarei ficando velha, perguntará a si mesma no banheiro, e pensará no marido, depois chamará os filhos para a escola, o mesmo marido para o trabalho, a todos para a vida diária corriqueira, sem novidades, exceto aquela que todos saberão no fim do dia, de que ela só terá consciência no último instante e apenas por um brevíssimo momento ou quem sabe não terá, não compreenderá a origem da sensação estranha de calor e leve dor em todo o seu frágil corpo. Arrumará as roupas de todos, lavadas na noite anterior, depois que chegou tarde do trabalho, fará recomendações, não cheguem tarde, cuidado na rua, lavará a louça e deixará a mesa pronta para o almoço pois àquela hora ainda não estará de volta. Agora chama a filha, hoje tu vais comigo, é sábado, tem serviço extra...

Brasileirão

Jornal O Estado do Maranhão O campeonato brasileiro de futebol, o Brasileirão, chega ao fim com sucesso hoje. Seria melhor não fosse pelo juiz que manipulou algumas partidas, anuladas de imediato pelo tribunal de justiça desportiva. A rapidez da ação evitou as usuais polêmicas, de resultados imprevistos sobre o andamento da competição. O acerto da forma de disputa, a mesma adotada na Europa, levou a que as duas equipes mais eficientes neste ano, Corinthians e Internacional, de Porto Alegre, sejam as únicas com chances de alcançar o título, como, aliás, acontece quando o merecimento prevalece. A razão do êxito do Brasileirão está justamente aí, num sistema de pontos corridos, com rebaixamento e jogos de todos contra todos em dois turnos. Não é o caso da Copa do Brasil, torneio cujo objetivo é dar oportunidade de vencê-lo a times sem tradição nacional, com um pouco de sorte em pequeno número de partidas eliminatórias. Os méritos dessa boa organização são da CBF. Quem não se lembra da re...

Rotina

Jornal O Estado do Maranhão   Num domingo de verão, fim da tarde, quando milhares de pessoas voltavam a Paris em seus automóveis, um engarrafamento paralisou na auto-estrada o trânsito em direção à cidade. Depois de algum tempo os motoristas se convenceram de não ser o problema temporário, mas de longa duração. Aos poucos, sem meios para escapar, depressa estruturaram uma pequena comunidade. Logo, porém, surgiram as mesmas relações humanas desumanizadas, se assim posso dizer, da sociedade maior de onde vinham, marca distintiva da vida nos nossos dias. A primeira necessidade era estabelecer regras garantidoras da sobrevivência física de todos. Como assegurar o abastecimento de água e comida? Formaram-se grupos, surgiram chefes, conflitos, alianças. Muitos conversavam, falavam sobre suas vidas, desabafavam com gente nunca vistas em outra ocasião, pensavam nas obrigações que não poderiam cumprir, liam, sonhavam, amavam, odiavam. Criou-se um almoxarifado geral, organizou-se a distribu...

Memória

Jornal O Estado do Maranhão   A lei estadual há poucos dias aprovada pela Assembléia Legislativa que tem como objeto retirar da Fundação da Memória Republicana a posse do Convento das Mercês é uma tentativa de atingir José Sarney. Não é uma disputa jurídica, pois a opinião dos mais qualificados juristas maranhenses e de outros Estados diz ser perfeito o ato que convalidou a doação do prédio para a Fundação. A Academia Maranhense de Letras recebeu em doação do governo do Estado, em 1951, o prédio de sua sede na rua da Paz. O governador Sebastião Archer da Silva cometeu alguma ilegalidade ao sancionar a transferência? Haverá neste momento a disposição de aprovar lei retornando a edificação ao patrimônio público, de onde foi retirada de forma legal e legítima, como foi o Convento? Por certo, nós todos seremos julgados com severidade no futuro se essa lei de fato vigorar. A justiça ainda irá se pronunciar com serenidade sobre ela.  Onde está a razão dessa atitude capaz de ameaçar...

Gato por Lebre

Jornal O Estado do Maranhão Nos velhos tempos, o Partido dos Trabalhadores desejava ser diferente. Ele teria virtudes ausentes nos outros e estes teriam defeitos dos quais ele não padeceria. E assim se passaram 25 anos. Durante esse tempo se ouvia sobre os seus adversários a acusação de que eram corruptos e não faziam o necessário para tirar o povo da miséria porque lhes faltava “vontade política”, não uma vontade qualquer, como a insinuar nos partidos “burgueses” a existência de outra, a de desviar dinheiro público, e como se a resolução dos problemas nacionais dependesse só dessa vontade. Para quem se dizia socialista ou marxista achar que apenas tal predicado dos dirigentes resolve os problemas de um país revela um idealismo filosófico – idealismo não no sentido comum referente a pessoas desprendidas, indiferentes à riqueza e de nobres ideais, pois já se sabe não ser esse o caso dos petistas – muito distante das teses materialistas nas quais a sociologia desse pessoal supostamente ...