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Bom Combate

Jornal O Estado do Maranhão   Segundo estimativa da Controladoria Geral da União – CGU, os municípios brasileiros desviaram 20% de todas as transferências recebidas do governo federal no ano passado, uma enorme massa de dezenas de bilhões de reais. Casos de fraudes são freqüentes, chegando, algumas, a ser hilárias, sem deixar de caracterizar a cultura do roubo de recursos públicos, afinal arrancados do bolso de todos nós, embora algumas pessoas acreditem, ou finjam acreditar, que os governos são capazes de produzir qualquer forma de riqueza. Há edificantes exemplos. Um edital de licitação foi publicado em um único exemplar do jornal de uma cidade, num faz-de-conta que não apareceu nos demais exemplares que circularam na mesma data atribuída ao filho único. Num município maranhense, dinheiro do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi utilizado para a compra de caixões e ventiladores. Foram encontradas irregularidades graves em 90% das auditorias da CGU. Nos 10% restantes,...

Nepotismo

Jornal O Estado do Maranhão Os cientistas sociais, ao estudar o nepotismo, não indicam sua origem, limitando-se a descrevê-lo. Veja-se, por exemplo, o que diz o Dicionário de Ciências Sociais , da Fundação Getúlio Vargas, editado sob a coordenação geral de Benedicto Silva, no verbete de Charles Aiken: “ Nepotismo é a prática pela qual uma autoridade pública nomeia um ou mais parentes próximos para o serviço público ou lhes confere outros favores, a fim de promover o prestígio da família, aumentar a renda da família ou ajudar a montar uma máquina política, em lugar de cuidar da promoção do bem-estar público”. Ora, como esse comportamento não é exclusividade brasileira, ocorrendo em todas as sociedades, falta a explicação, que necessariamente deve ter caráter de universalidade, de sua origem. Os especialistas em sociobiologia, no entanto, ciência nova, dedicada a estudar as bases biológicas de todo o comportamento social, inclusive dos chamados insetos sociais, como as abelhas e as for...

João Paulo

Jornal O Estado do Maranhão     Tem o Vaticano divisões de guerra? Tem soldados (além dos da simbólica guarda suíça), mísseis, aviões, porta-aviões? Tem o poder material de invadir países, derrubando seus chefes e estabelecendo regimes favoráveis a seus interesses? Recebe o seu líder, o papa João Paulo II, morto recentemente, homenagens de nações interessadas apenas em agradar essa “potência” de menos de meio quilômetro quadrado, por temor de represálias econômicas ou militares? As respostas a essas perguntas são todas negativas. Então, de onde vem essa força tão grande, capaz de juntar na mesma reverência àquele homem Fidel Castro e George Bush, o rei da guerra, e de levar o presidente cubano a uma solenidade religiosa em memória de João Paulo, na catedral de Havana, depois de 46 anos sem entrar num templo religioso? Não é extraordinário também que a memória do papa tenha sido capaz de atrair ao funeral mais de 200 chefes de Estado e de governo, número superior ao dos membr...

Natureza e Economia

Jornal O Estado do Maranhão   A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, divulgou um relatório, elaborado sob a coordenação da ONU, chamado Avaliação Ecossistêmica do Milênio. É o resultado de um trabalho de um grupo de 1.350 cientistas de 95 países, sobre a capacidade atual e futura da natureza de nos fornecer bens e serviços ambientais. Dois terços destes estão comprometidos em sua capacidade de nos assegurar, por exemplo, água e pescado, reciclagem de nutrientes do solo e controle do clima local. Associados à degradação, estão o aumento nas epidemias, crescimento excessivo no lançamento de fosfatos e nitratos em águas costeiras, provocando o acúmulo de matéria orgânica em decomposição, conhecido como eutrofização, e mudanças climáticas causadas pelo desmatamento. Resultarão daí problemas imensos num futuro próximo, como o surto de cólera ocorrido na África entre 1977 e 1978. No longo prazo, as coisas serão piores. Até 20% das florestas no mundo todo serão suprimidos até 2050, ...

Vida e Morte

Jornal O Estado do Maranhão   Primeiro, o homem, no abrigo de uma caverna que o protegia das forças da natureza e dos outros animais em luta pela sobrevivência individual e pela perpetuação da espécie, teve consciência de existir. Aos poucos, atenuadas as duras condições de vida, depois de gerado um excedente material que lhe permitiu momentos de brevíssimo ócio, sobrou-lhe algum tempo para reflexão, que, finalmente, veio explodir muito mais tarde, com força incomum, aparentemente do nada, mas como resultado lógico de uma longa evolução, na filosofia dos nossos avós espirituais, os gregos. Veio-lhe daquelas condições iniciais – esta narrativa é apenas uma forma de imaginar a pré-história existencial de nossa espécie – veio-lhe daí, eu dizia, a consciência de sua própria finitude, pois não morriam muitos nas lutas pelo território, pela água, pela alimentação, não morriam os pais, não morriam os amigos, não morriam os inimigos, não morriam todos, até mesmo os mais jovens, os continu...

A César o que é de César

Jornal O Estado do Maranhão   O Ministério da Saúde e a prefeitura do Rio de Janeiro engalfinham-se pela saúde do povo da Cidade Maravilhosa. Mas, quem achar que da briga resultará algum benefício de caráter permanente para a população, trate de se internar num hospital longe de lá, a fim de se tratar de ingenuidade aguda. Em meio a golpes baixos e altos, e contra-golpes sujos e malcheirosos, o governo federal decretou estado de calamidade pública na rede hospitalar do Rio e interveio em seis hospitais municipais. Em represália, o prefeito César Maia exonerou 51 funcionários dos hospitais de seus cargos em comissão, depois retirou as gratificações e cargos de chefia de 285 e, por fim, suspendeu o fornecimento às unidades hospitalares de kits para análise de tipos sangüíneo dos pacientes, que precisariam de toda a paciência do mundo para aceitar essas decisões. Todas essas medidas edificantes, prova de elevado fervor cívico e comovente preocupação do prefeito do Rio com a saúde do ...

Gerundismo

Jornal O Estado do Maranhão   Esta semana eu vou estar escrevendo sobre um modismo que vai estar agredindo por muito tempo, sem dó nem piedade, a língua pátria, a nível de analfabetismo funcional, enquanto deturpação da maneira correta de expressão verbal. Os leitores vão estar percebendo minha colocação e vão estar vendo que vou estar me referindo ao gerundismo. Alguém vai poder estar pensando que vou estar exagerando na crítica ao uso injustificável do gerúndio, característica dessa praga lingüística. Quem for estar pensando de tal forma vai estar enganando a si mesmo. Eu vou estar, até, sendo benevolente, porque o que eu deveria estar fazendo é estar pedindo às autoridades que os gerundistas estivessem sendo colocados de volta nos bancos da escola primária e estivessem levando puxões de orelha cada vez que fossem estar falando assim. Mas, eu vou estar pedindo apenas que eles parem de estar espalhando essa moda obtusa que solapa ardilosamente o idioma pátrio, tal como a globaliz...