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Vida e Morte

Jornal O Estado do Maranhão   Primeiro, o homem, no abrigo de uma caverna que o protegia das forças da natureza e dos outros animais em luta pela sobrevivência individual e pela perpetuação da espécie, teve consciência de existir. Aos poucos, atenuadas as duras condições de vida, depois de gerado um excedente material que lhe permitiu momentos de brevíssimo ócio, sobrou-lhe algum tempo para reflexão, que, finalmente, veio explodir muito mais tarde, com força incomum, aparentemente do nada, mas como resultado lógico de uma longa evolução, na filosofia dos nossos avós espirituais, os gregos. Veio-lhe daquelas condições iniciais – esta narrativa é apenas uma forma de imaginar a pré-história existencial de nossa espécie – veio-lhe daí, eu dizia, a consciência de sua própria finitude, pois não morriam muitos nas lutas pelo território, pela água, pela alimentação, não morriam os pais, não morriam os amigos, não morriam os inimigos, não morriam todos, até mesmo os mais jovens, os continu...

A César o que é de César

Jornal O Estado do Maranhão   O Ministério da Saúde e a prefeitura do Rio de Janeiro engalfinham-se pela saúde do povo da Cidade Maravilhosa. Mas, quem achar que da briga resultará algum benefício de caráter permanente para a população, trate de se internar num hospital longe de lá, a fim de se tratar de ingenuidade aguda. Em meio a golpes baixos e altos, e contra-golpes sujos e malcheirosos, o governo federal decretou estado de calamidade pública na rede hospitalar do Rio e interveio em seis hospitais municipais. Em represália, o prefeito César Maia exonerou 51 funcionários dos hospitais de seus cargos em comissão, depois retirou as gratificações e cargos de chefia de 285 e, por fim, suspendeu o fornecimento às unidades hospitalares de kits para análise de tipos sangüíneo dos pacientes, que precisariam de toda a paciência do mundo para aceitar essas decisões. Todas essas medidas edificantes, prova de elevado fervor cívico e comovente preocupação do prefeito do Rio com a saúde do ...

Gerundismo

Jornal O Estado do Maranhão   Esta semana eu vou estar escrevendo sobre um modismo que vai estar agredindo por muito tempo, sem dó nem piedade, a língua pátria, a nível de analfabetismo funcional, enquanto deturpação da maneira correta de expressão verbal. Os leitores vão estar percebendo minha colocação e vão estar vendo que vou estar me referindo ao gerundismo. Alguém vai poder estar pensando que vou estar exagerando na crítica ao uso injustificável do gerúndio, característica dessa praga lingüística. Quem for estar pensando de tal forma vai estar enganando a si mesmo. Eu vou estar, até, sendo benevolente, porque o que eu deveria estar fazendo é estar pedindo às autoridades que os gerundistas estivessem sendo colocados de volta nos bancos da escola primária e estivessem levando puxões de orelha cada vez que fossem estar falando assim. Mas, eu vou estar pedindo apenas que eles parem de estar espalhando essa moda obtusa que solapa ardilosamente o idioma pátrio, tal como a globaliz...

É Ouro!

Jornal O Estado do Maranhão Poucas vezes na história do Oscar, penso eu, um filme mereceu tanto a premiação como Menina de Ouro . Ele conta a história de uma garçonete pobre, chamada Maggie Fitzgerald, interpretada por Hilary Swank – por sinal ela ganhou este ano o Oscar de melhor atriz e, também, em 1999 –, que sonha tornar-se uma grande lutadora de boxe. Para isso se dedica a treinar com extraordinária obsessão, como só as pessoas determinadas fazem. O veterano treinador Frankie Dunn (Clint Eastwood), dono do ginásio decadente onde ela se exercita diariamente, inicialmente se recusa a orientá-la, mas finalmente a aceita. Os dois, ela afastada da família insensível e interesseira e ele, da própria filha, estabelecem uma profunda relação de amizade, enquanto a carreira dela tem crescente sucesso até ser destruída por uma tragédia. A eutanásia desejada por ela é o grande dilema que seu amigo e quase pai, católico praticante, irá enfrentar com plena consciência das implicações éticas e ...

Futuro sob Ameaça

Jornal O Estado do Maranhão Não será por não saber o que fazer que não cumprimos no Brasil a obrigação de melhorar nosso sistema educacional. O exemplo da Coréia, apesar das diferenças culturais e sociais, mostra o caminho. É inadiável atender a necessidade de se investir pesadamente na melhoria do ensino básico. Não é o caso de deixar-se de aplicar recursos no superior. Trata-se de corrigir a distorção de destinar mais de 80% dos recursos públicos a este nível de instrução e, as migalhas, ao fundamental. Esse equívoco nos leva a gastar 17 vezes mais com os universitários do que com os demais alunos. Por contraste, a Coréia gasta apenas duas vezes mais e tem 82% de seus jovens na universidade. O Brasil, apenas 18%. Ou seja, gastamos relativamente muito mais do que os coreanos, mas colocamos uma percentagem muito menor no nível superior, com formação de qualidade inferior. Ora, jamais teremos universidades minimamente habilitadas a satisfazer as necessidades de pesquisa de novas tecnolo...

Promessas

Jornal O Estado do Maranhão Quando se pensa na eleição do presidente da Câmara dos Deputados, cargo que pode eventualmente levar seu ocupante a substituir o presidente da República nos impedimentos deste e do vice-presidente, é natural imaginar que os candidatos, por ocasião do pleito, se preocupem prioritariamente com as questões político-institucionais relevantes para o país e para o povo brasileiro. Mas, não se vê nada disso na atual campanha ou, pelo menos, não é essa a impressão que se tem. Tem-se outra impressão: o futuro presidente, seja ele quem for entre os que têm chance de se eleger, pretende administrar a Câmara apenas no interesse particular dos parlamentares-eleitores, cujas aspirações, em grande parte, ganham expressão nas promessas magnânimas dos aspirantes ao cargo, em número de quatro. Apareceu um sequer entre eles com propostas, por exemplo, de disciplinamento efetivo do uso de Medidas Provisórias, de triste fama pelos problemas criados ao funcionamento da Casa, devi...

Carnaval sem Malho

Jornal O Estado do Maranhão O leitor deve se lembrar da novidade do Carnaval do ano passado aqui em São Luís: o Rei Momo malhado. Não se lembra? O caso foi este. Inventaram que essa simpática e redonda figura da nossa tradição teria de ser soberano de academia de musculação, forte e atlético, e não do tipo bom de boca como ele deve ser. Eu protestei contra a novidade, que me parecia antidemocrática, com o argumento de que apenas um pequeno número de pessoas, uma minoria privilegiada, teria a capacidade ou a vontade para obter, pela freqüência a caríssimas academias, um corpo malhado capaz de dar a seu dono o direito de candidatar-se ao trono, caso a infeliz inovação imperasse. A maioria, sim, tem a seu alcance a democrática possibilidade, em verdade a extraordinária facilidade, de engordar e, portanto, de concorrer ao “cobiçado título”, como dizem os locutores esportivos. Dizia eu ainda: “Estamos, assim, diante de uma redução da oportunidade do cidadão comum de chegar à realeza e, por ...