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Lisboa, nova cidade

Jornal O Estado do Maranhão Chego a Lisboa. No caminho até o hotel o motorista de táxi me informa de que, havia pouco, devido ao despiste de um autocarro duas pessoas haviam se ferido. Isso, dizia ele, estava a acontecer freqüentemente nos últimos tempos. Penso na longa viagem e sinto o cansaço. Eles certamente estavam a afetar minha compreensão das coisas mais simples ditas em português, mas resolvo ficar calado a fim de não dar a impressão de não saber a língua. Antes, no aeroporto, ao entrar no elevador com a minha bagagem eu havia encarado aquele aviso: “ carregue o botão ”. Ora, como eu podia carregá-lo se ele estava firmemente fixado? Além do mais, poderia alguém fazer algo de útil com ele, se fosse possível levá-lo? Seria um brinde insólito aos recém-chegados, para ajudá-los a ter uma boa estada em solo português? Ou quem sabe tratava-se de algum tipo de espionagem eletrônica destinada ao controle dos brasileiros em Portugal? Agora me aparecia a história do despiste . Eu de...

Armadilhas

Jornal O Estado do Maranhão Perguntam-me se não me falta assunto para escrever todas as semanas. Falta, claro, algumas vezes. Acontece com todo mundo que escreve. Ninguém esteve, está ou estará livre dessa pane periódica de idéias. Em algum momento ela vai atacar. É uma situação semelhante à do sujeito chamado a dizer alguma coisa, as famosas “breves palavras para não me alongar”, de duração, não raro, de no mínimo meia hora. De repente, lhe dá um branco. Como tem de dizer alguma coisa, ele diz. Tem início aí uma pequena tragédia. Ele começa a soltar as primeiras coisas que lhe vêm à cabeça, a dar voltas, a repetir-se, a dizer que vai terminar logo, mas, de verdade, não diz coisa nenhuma nem sabe como terminar. Exceto no caso de o “discurso” ser dirigido a seu chefe na festa do seu aniversário. Aí o discursador sabe direitinho os elogios a fazer. Nesta última situação, não falta matéria para ele deitar falação à vontade. Quem escreve, porém, precisa ter cuidado. O vento leva a palavra...

O cara-chata

Jornal O Estado do Maranhão Mesmo muito tênues, algumas lembranças tenho do Cara-chata. Mas, há um episódio relacionado a ele, solto do resto, isolado de tudo, nítido ainda na minha memória, depois desses anos todos. Vejo um tio meu, Saul Raposo, na época com menos de trinta anos de idade, tentando recolocar no lugar certo, com as mãos sujas da graxa com seu cheiro característico espalhado pelo terraço da nossa casa do Monte Castelo, a parte de cima de um motor ou de um conjunto mecânico desconhecido para mim. Repentinamente, o objeto escorrega na graxa dos dedos dele e os imprensa contra a borda inferior do conjunto de aço. A exclamação raivosa ante a dor inesperada me faz adivinhar.  Aquela não era uma palavra para ser dita em frente dos mais velhos. Se não era a primeira desse tipo ouvida por mim, era a primeira a entrar na minha consciência. Os trapos de algodão grosseiro, usados com gasolina na limpeza da sujeira dos óleos, serviram naquele momento para, secos, enxugar o pouc...

Paixão e castigo

Jornal O Estado do Maranhão Após 86 anos de vigência, o código civil brasileiro de 1916 foi substituído pelo que passou a vigorar no dia 11 deste mês. De acordo com os especialistas, os legisladores não introduziram mudanças radicais nas normas antigas. Adaptaram a nova legislação às mudanças na sociedade e às tendências consagradas anteriormente em decisões dos tribunais. Foram 26 anos de tramitação do projeto original no Congresso Nacional. Nesse período, ele sofreu incontáveis alterações, até chegar à versão aprovada. A lentidão tem origem na complexidade do assunto. Afinal, trata-se de regular relações entre pessoas, em aspectos importantes para a vida de todos. O longo tempo despendido, no entanto, levou a que, no dia mesmo da promulgação, houvesse no Congresso Nacional 370 propostas de alteração da nova lei. A obsolescência quase instantânea desse tipo de legislação decorre de nossa tradição de codificação das normas relativas aos grandes ramos do direito: civil, criminal e outr...

Contas a pagar

Jornal O Estado do Maranhão Durante alguns anos no Brasil, muito se discutiu sobre o acerto ou o erro de adotarem-se orçamentos públicos equilibrados como a base de qualquer política econômica com o objetivo de controlar a inflação. Havia correntes de opinião auto-intituladas esquerdistas, mas em verdade defensoras da teoria da geração de riqueza pela impressão de papel-moeda, que afirmavam ser possível produzir déficits orçamentários sistemáticos, sem disso resultar nenhuma conseqüência com respeito ao processo inflacionário. A aceitação dessa idéia por sucessivos governos resultou na inflação crônica experimentada pelo país ao longo de muitos anos. Eliminavam-se, assim, todas as possibilidade de alcançarmos as condições de gerar os recursos necessários aos programas sociais reclamados por todos. O debate foi superado de uma forma que dá razão a Karl Marx na sua observação de que as alterações na realidade mudam as opiniões das pessoas e sua maneira de encararem o mundo, e não o cont...

Alguma dúvida?

Jornal O Estado do Maranhão Ele votou em George Bush, lutou na Guerra do Golfo e foi oficial de inteligência da marinha dos Estados Unidos. Seu nome é Scott Ritter. Ser americano, com esse currículo, não o impediu de tornar-se chefe da inspeção, exigida pelo governo de Washington e coordenada pela ONU, sobre “armas de destruição em massa”, supostamente possuídas pelo Iraque, apesar da natural suspeita dos dirigentes deste país de ele ser um mero agente do interesse do governo Bush, de invadir o seu território. Ele pareceu confirmar a avaliação de parcialidade feita pelos iraquianos ao abandonar sua função, denunciando a falta de cooperação deles com os inspetores. Mas, surpreendentemente, foi além disso. Acusou o presidente americano de manipulação do trabalho de inspeção. Em entrevista recente, disse que atualmente “os iraquianos estão cooperando”. Em sua avaliação, serão necessários de seis a doze meses até o término da missão e a produção de um relatório conclusivo sobre a existênc...

Qual tempo?

Jornal O Estado do Maranhão Sempre me ocorre fazer esta pergunta, às vésperas do Ano Novo: Passamos pelo tempo ou o tempo passa por nós? Ao longo do ano, a simples andar dos dias, das semanas e dos meses não nos dá, ou o faz de uma maneira muito atenuada, essa percepção de passagem do tempo ou de nossa passagem por ele. Períodos de vinte e quatro horas, de sete dias e ou de trinta dias são pequenos demais para fazer com que desejemos comemorá-los. As celebrações de períodos tão curtos se tornariam banais, desinteressantes e enfadonhas, pela sua freqüência. Deve ser por isso que não se comemoram aniversários mensalmente nem semanalmente. O fim de um mês, ou de um dia, e começo de outro, não nos oferece a mesma sensação de conclusão de uma volta completa e começo de outra dada pelo fim do ano. Esta última impressão nos faz sentir essa passagem como um marco temporal natural, adequado. È a intuitiva confirmação do retorno periódico de todas as coisas, até mesmo do próprio universo, no seu...